As praias de Recife estão entre os destinos mais famosos do Nordeste brasileiro. Com águas mornas e infraestrutura urbana, locais como Boa Viagem atraem milhares de turistas todos os anos. Mas por trás desse cenário paradisíaco existe uma característica que transformou o litoral pernambucano em uma das regiões com maior número de incidentes com tubarões do mundo.
O assunto voltou ao centro das atenções após dois ataques registrados em menos de 48 horas na Região Metropolitana do Recife. As ocorrências aconteceram nas praias de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, e Boa Viagem, na capital pernambucana.
Embora muitas pessoas associem os ataques apenas à presença dos animais na região, especialistas explicam que as ocorrências são resultado de uma combinação de fatores geográficos, ambientais e humanos que tornam essa faixa da costa especialmente favorável à circulação de tubarões.
Boa Viagem e Piedade concentram a maior parte dos casos
Segundo dados do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), que reúne ocorrências registradas desde 1992, Boa Viagem acumula 25 incidentes com tubarões, enquanto Piedade acumula 24 ocorrências. Juntas, as duas praias respondem por mais da metade dos casos contabilizados em Pernambuco.
Tubarão-cabeça-chata é uma espécie comum no litoral da Região Metropolitana do Recife. Foto: Reprodução/Perito Animal
geografia da costa favorece a aproximação dos animais
De acordo com a pesquisadora Mariana Rêgo, integrante do Cemit e do Departamento de Pesca da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), a própria formação do litoral pernambucano contribui para a presença dos tubarões próximos da faixa de areia.
Diferentemente de regiões que possuem grandes baías ou extensos recifes contínuos funcionando como barreiras naturais, a costa entre Recife e Jaboatão apresenta recifes fragmentados e profundidade elevada já nos primeiros metros após a entrada no mar.
Por isso, um banhista pode alcançar áreas mais profundas rapidamente, compartilhando o mesmo espaço utilizado por espécies que costumam circular próximas ao litoral.
Rios e água turva criam condições favoráveis
A presença de rios que desembocam na região, como os rios Capibaribe e Beberibe, também é um fator importante para a presença de tubarões. Esses cursos d'água carregam matéria orgânica e nutrientes para o oceano, atraindo peixes e outras espécies marinhas que fazem parte da cadeia alimentar dessas espécies. Com mais alimento disponível, aumenta também a circulação dos predadores na área.
As condições climáticas também exercem influência. Durante os períodos de chuva e maré alta, a água tende a ficar mais turva, reduzindo a visibilidade tanto para os animais quanto para os banhistas. Nessas circunstâncias, os tubarões podem ter maior dificuldade para identificar corretamente o que está à frente, aumentando o risco de incidentes.
Praias em Recife possuem sinalizações espalhadas pela faixa de areia. Foto: Leo Caldas/Folhapress
Transformações urbanas também alteraram a dinâmica do mar
Ao longo das últimas décadas, intervenções humanas modificaram significativamente o ecossistema costeiro pernambucano. Entre os fatores mais citados está a construção do Porto de Suape, iniciada entre as décadas de 1970 e 1980.
Segundo estudos e análises de órgãos ambientais, a obra alterou áreas de manguezal, estuários e outros ambientes utilizados por diversas espécies marinhas para alimentação e reprodução.
Além disso, atividades como a pesca intensiva, a expansão urbana, a degradação ambiental e o lançamento de resíduos em rios e áreas costeiras também contribuíram para mudanças na dinâmica da fauna local.
Com a redução de algumas populações de peixes e alterações em rotas naturais de deslocamento, especialistas acreditam que determinadas espécies de tubarão passaram a frequentar áreas mais próximas da costa com maior regularidade.
Quais situações aumentam o risco de incidentes?
As autoridades de Pernambuco mantêm sinalização permanente em diversos trechos do litoral e reforçam recomendações específicas para banhistas.
Segundo o Corpo de Bombeiros, os períodos considerados mais críticos incluem maré alta, baixa luminosidade, chuva intensa e momentos em que a água apresenta maior turbidez.
Também é recomendado evitar entrar no mar em áreas sinalizadas, principalmente em trechos conhecidos pelo histórico de ocorrências.
Foto de capa: Marlon Costa/Pernambuco Press
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