Booktubers estão usando ChatGPT para falar de livros que não leram

A Inteligência Artificial virou uma espécie de leitor fantasma porque criadores de conteúdo literário passaram a terceirizar a leitura

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ana-serra

Carolina Rodrigues

Redatora
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Carolina Rodrigues

Redatora

Booktubers, criadores de conteúdo em redes sociais cuja identidade gira em torno da leitura, estão começando a admitir sem constrangimento que não leem todos os livros que recomendam. Em vez disso, leem o que o ChatGPT diz e resume sobre eles.

O curioso é que, diferentemente do que leitores mais tradicionais talvez fizessem, eles não confessam isso diante da câmera como algo vergonhoso, nem pedem desculpas aos seguidores por produzir um conteúdo de segunda mão. Contam como se fosse um truque de produtividade, uma solução inteligente para o problema de precisar produzir conteúdo sobre livros que, na prática, não têm tempo de ler.

100 livros em uma semana

O caso mais chamativo dessa tendência, que ainda continua rendendo discussão, explodiu em agosto de 2025, quando uma usuária do TikTok publicou um vídeo dizendo que havia lido 100 livros em uma semana. O truque era o SoBrief, aplicativo que oferece mais de 73,5 mil resumos em áudio e texto com a promessa de “terminar qualquer livro em 10 minutos”.

A reação nas redes foi imediata: o que sobra da leitura quando aquilo que se busca não é justamente a experiência de ler? Houve até quem comentasse que esses booktubers tinham conseguido transformar em realidade aquilo que Bradbury antecipava em Fahrenheit 451, embora talvez o resumo nem mencione isso.

Nada disso nasceu agora

Ainda que a IA generativa hoje consiga resumir qualquer livro em segundos, a internet já fazia esse papel há anos, só que de forma mais trabalhosa. O CliffsNotes, na verdade, veio antes da própria internet: está no mercado desde 1958 publicando livros que resumem outros livros, como apoio para estudantes. O SparkNotes, fundado por quatro estudantes de Harvard em 1999, democratizou os resumos literários online e os tornou gratuitos. O Blinkist, criado em 2012, levou esse mesmo espírito para os ensaios de não ficção.

Existe toda uma linhagem que vai desses pontos de apoio para estudantes que não conseguiam terminar as leituras a tempo, no Brasil poderíamos pensar em algo como o “jeitinho” dos resumos prontos da internet, até chegar ao NotebookLM e ao ChatGPT, que passam por cima de tudo o que veio antes. O ChatGPT é gratuito e consegue resumir qualquer coisa em minutos.

A novidade aparece justamente em um momento de pressão crescente sobre os criadores de conteúdo literário para opinar sobre tudo o que chega ao mercado. A combinação perfeita para esse tipo de distorção.

Identidades de segunda mão

Para além de haver influenciadores mais ou menos transparentes com seus seguidores, a conversa e a polêmica de fundo dizem respeito à identidade cultural dos livros. Na coluna citada anteriormente, Marc Watkins fala da importância das estantes que apareciam nas chamadas de Zoom durante a pandemia, algo que chegou a impulsionar serviços que enviavam livros com os autores “certos” para compor o fundo das reuniões.

Chegamos a um ponto em que a ideia de ser leitor passou a ser mais valorizada do que o ato de ler em si.

Há mil versões dessa mesma lógica: livros organizados por cor no Instagram, vídeos de compras em livrarias que nunca se transformam em leitura, listas de “livros que mudaram minha vida” com títulos recém-comprados. Ser leitor virou o centro dessas novas identidades, quando esse lugar deveria pertencer à própria leitura.

Nenhum humano foi ferido no processo

Há ainda uma reviravolta conceitual que ajuda a fechar esse caos: boa parte dos livros que circulam por essas comunidades talvez nem tenha sido escrita por humanos. Segundo um estudo de janeiro de 2026, que analisou 844 livros da subcategoria “Success”, de autoajuda, na Amazon, publicados entre agosto e novembro de 2025, 77% provavelmente foram escritos integralmente por modelos de IA, embora esse tipo de afirmação também precise ser visto com cautela.

O mesmo relatório aponta que menos de 4% dos autores da amostra publicaram 12% de todos os títulos. Há perfis que lançaram cinco livros ou mais no período analisado. Um dos casos extremos é o de um autor que publicou uma série inteira de livros motivacionais em apenas três dias.

A participação humana nessa linha de montagem é mínima: o conteúdo é sintético, uma IA resume, criadores que não leram comentam e o público participa de uma conversa sobre livros que ninguém na cadeia sabe realmente do que tratam, e talvez isso nem importe tanto.

No fim, o que circula é a sombra dos livros: sinais de que há livros em algum lugar, dados sobre sua existência e reações a esses dados.

Texto traduzido e adaptado do Xataka Espanha.

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