Quando falamos da Geração Z, está claro que ela enxerga o trabalho de forma diferente das gerações anteriores. E, se seus integrantes aprenderam a pensar assim, é porque isso responde a um princípio conhecido como “o contrato quebrado”: a recompensa prometida em troca do esforço deixou de parecer real. E, quando isso acontece, o cérebro humano não recalibra aos poucos, mas de uma vez.
Curiosamente, isso não é algo que a Geração Z tenha simplesmente aprendido do nada. Ela já tinha pistas para descobrir essa lógica, e uma das que melhor resume essa construção pôde ser vista em Os Simpsons. Sim, mais uma vez a série de Matt Groening “prevendo” o futuro com uma precisão assustadora, e de forma ultrarresumida. A tal ponto que talvez Bart tenha sido o primeiro profeta da Geração Z ao apontar que há razões para acreditar que aquilo que “nos venderam” não é verdade e não compensa o esforço.
A Geração Z, protagonista fora de cena em Os Simpsons
Essa “previsão” da série de animação mais longeva da história aconteceu em seus primeiros tempos, mais especificamente no episódio 21 da segunda temporada: “Três Homens e um Gibi”. A sinopse do episódio gira em torno de Bart tentando conseguir a edição número 1 de “O Homem Radioativo”, mas Jeffrey Albertson, conhecido pelos fãs como Comic Book Guy, pede nada menos que US$ 100 pelo gibi.
Obviamente, Bart não tem dinheiro suficiente para comprá-lo, e Marge sugere que ele trabalhe para ganhar o valor necessário e conseguir a revista. Ele decide seguir o conselho e se oferece à vizinha, a senhora Glick, para fazer alguns pequenos trabalhos em sua casa. Bart cumpre todas as tarefas que ela lhe passa, não sem arriscar a própria integridade física em alguns casos. Ao fim de uma semana de trabalho duro, Bart recebe seu pagamento: meio dólar.
Já em casa, ele expõe a Homer sua indignação, justificada, diga-se de passagem, e conclui que “trabalhar é coisa de trouxa”. O próprio pai concorda com essa verdade e o parabeniza por ter percebido isso com metade da idade que Homer tinha quando chegou à mesma conclusão. Por trás dessa piada, curiosamente, está o reflexo de uma realidade entre integrantes da Geração Z e provavelmente também das anteriores: o desconto hiperbólico como uma distorção cognitiva. Ou, dito de forma coloquial nesse exemplo televisivo, o esforço futuro de trabalhar parece muito grande em comparação com a recompensa, o que dá para entender por que Bart decide jogar a toalha.
O contrato quebrado e por que a Gen Z não estuda para o futuro
Analisando a situação de forma mais fria e levando em conta estudos recentes que mostram que a Geração Z não aprendeu a trabalhar menos, mas sim a não perder tempo em projetos que não levam a lugar nenhum, fica evidente que ela organiza e prioriza seu tempo de maneira diferente e com um pouco menos de otimismo. Um estudo da Universidade de Harvard, “Golden Eggs and Hyperbolic Discounting”, publicado no Quarterly Journal of Economics em 1997, demonstra que as funções de desconto hiperbólico induzem preferências dinamicamente inconsistentes. Em termos simples, os humanos não desvalorizam o futuro de forma linear. Fazemos isso de uma vez, de forma severa, assim que esse futuro deixa de parecer garantido.
O estudo descreve esse fenômeno como um freio motivacional para qualquer pessoa, especialmente quando a recompensa a receber é muito inferior ao esforço investido para alcançá-la. Ou seja, Bart trabalhando sem parar durante uma semana inteira e passando maus bocados para conseguir uma parte miserável do que precisava: meio dólar de um objetivo de US$ 100. A Geração Z está sofrendo uma desilusão parecida, mas, no caso dela, isso é mais doloroso porque enxerga a situação econômica como ruim. Há dúvidas sobre se o futuro prometido realmente vai chegar.
E é curioso como uma piada de poucos minutos nesse episódio de Os Simpsons funciona como uma prova bastante ajustada da realidade vivida pela Geração Z. Para dar um exemplo: entre 2020 e 2024, os aluguéis básicos nos Estados Unidos aumentaram quase 29%, enquanto os salários reais cresceram muito mais lentamente, deixando quase um terço dos lares norte-americanos em situação de carga econômica excessiva. Cerca de 47% da Gen Z relata ansiedade excessiva ou preocupação difícil de controlar de forma contínua, um número que não para de crescer desde 2019. O problema é que eles não estão trabalhando para comprar um gibi, mas para ter uma vida. Bart precisava de US$ 100 para sua revista, enquanto um jovem da Geração Z precisa, em média, de dez anos de salário para comprar um apartamento. A piada de Os Simpsons envelheceu, mas não como esperávamos.
Texto traduzido e adaptado do 3DJuegos.
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