O papiro grego mais longo já encontrado não era o que parecia; sua tradução revelou uma história desconhecida de Roma

  • O papiro ofereceu uma visão fascinante da administração da justiça no Império Romano;

  • Também revelou como Roma lidava com crimes econômicos em uma província turbulenta

O papiro grego mais longo já encontrado não era o que parecia; sua tradução revelou uma história desconhecida de Roma
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Fabrício Mainenti

Redator

Placas e papiros antigos são cápsulas do tempo que oferecem um vislumbre fascinante de momentos específicos do passado — às vezes, até mesmo sob uma perspectiva em primeira pessoa. Eles abrangem desde o sistema trigonométrico mais antigo do mundo — ou exemplos de geometria aplicada que remontam a mil anos antes de Pitágoras — até histórias e relatos que revelam como era a vida milênios atrás.

Foi por isso que o mundo aguardou com expectativa a revelação do mais longo papiro grego descoberto até hoje. No fim das contas, tratava-se de algo completamente diferente.

Um papiro em Israel, um caso romano

Essa descoberta inédita lançou nova luz sobre o funcionamento do sistema jurídico romano e o combate a crimes financeiros nas províncias orientais do Império. Uma equipe internacional de pesquisadores da Academia Austríaca de Ciências, da Universidade de Viena e da Universidade Hebraica de Jerusalém publicou um estudo sobre um papiro grego contendo mais de 133 linhas — o mais longo já encontrado —, descoberto no Deserto da Judeia.

O documento, que havia passado despercebido até sua redescoberta em 2014, oferece um relato em primeira mão de um julgamento envolvendo fraude fiscal e falsificação de documentos nas províncias romanas da Judeia e da Arábia — uma região abalada por revoltas judaicas contra Roma durante os séculos I e II d.C.

Como veremos, a vida naquela época não era tão diferente da vida atual.

Um registro jurídico da Roma Imperial

O papiro, inicialmente identificado erroneamente como nabateu, permaneceu esquecido por décadas até que a professora Hannah Cotton Paltiel e seus colegas perceberam algo importante. Ao examiná-lo no laboratório de manuscritos da Autoridade de Antiguidades de Israel, ela identificou sua verdadeira natureza.

Essa descoberta levou à formação de uma equipe especializada para analisar seu conteúdo; posteriormente, confirmou-se que o documento consistia, na verdade, em anotações de promotores sobre um julgamento perante autoridades romanas, às vésperas da revolta de Bar Kokhba (132–136 d.C.). E isso não era tudo.

A linguagem do documento é surpreendentemente dinâmica, revelando estratégias processuais e discussões entre os promotores sobre a solidez das provas. Trata-se de um caso excepcionalmente bem documentado no contexto jurídico da província da Judeia — comparável em importância, por exemplo, ao julgamento de Jesus, especialmente no que diz respeito a evidências escritas de procedimentos legais romanos na região.

Um escândalo de fraude fiscal

Quanto ao mérito da questão, o caso jurídico documentado no papiro envolve dois réus, Gadalias e Saulos, que operavam um esquema fraudulento baseado em vendas fictícias e na alforria fraudulenta de escravos, tudo isso enquanto sonegavam impostos exigidos por Roma.

Gadalias — filho de um tabelião e possivelmente cidadão romano — tinha antecedentes criminais que incluíam violência, extorsão e falsificação de documentos. Seu cúmplice, Saulos, arquitetou o esquema para burlar os impostos romanos utilizando documentos falsificados para registrar transações inexistentes.

E há mais

O New York Times acrescentou que o esquema envolvia vendas fictícias de escravos de Saulos para um associado chamado Chaereas — residente na província da Arábia —, nas quais os escravos permaneciam fisicamente na Judeia, apesar de constarem como "transferidos" no papel. Isso lhes permitia escapar de um imposto de 4% sobre a venda de escravos e de um imposto de 5% sobre as alforrias.

A punição

Segundo o direito romano, a falsificação e a fraude fiscal eram infrações graves, puníveis com trabalhos forçados ou até mesmo com a pena de morte. A prisão de Gadalias e Saulos foi motivada não apenas pelo histórico criminal de ambos, mas também por um clima de crescente tensão política.

De fato, o caso desenrolou-se entre duas grandes revoltas judaicas — a Guerra de Quieto (ou Revolta da Diáspora, 115–117 d.C.) e a Revolta de Bar Kochba (132–136 d.C.) —, levando as autoridades romanas a suspeitar que as atividades deles estavam ligadas a uma conspiração contra o Império.

Além disso, o papiro menciona Tineius Rufusgovernador da Judeia quando eclodiu a Revolta de Bar Kochba — e situa as atividades dos acusados ​​no contexto da visita do imperador Adriano à região, entre 129 e 130 d.C. Essa conexão sugere que os romanos viam com desconfiança qualquer atividade ilícita na área, especialmente ações que pudessem ser interpretadas como atos de desafio à autoridade imperial.

Implicações econômicas e sociais

Um dos aspectos mais intrigantes do caso é a ausência de qualquer ganho econômico aparente decorrente da libertação fraudulenta de escravos, o que levanta questões sobre as motivações dos acusados. As hipóteses consideradas incluem a possibilidade de que o caso estivesse ligado ao tráfico de pessoas ou à tradição judaica de resgatar escravos judeus — uma prática enraizada em preceitos bíblicos.

Não é só isso. O documento também fornece informações valiosas sobre a administração jurídica romana no Mediterrâneo Oriental, confirmando a implementação de instituições como os circuitos judiciais do governador da Judeia e a obrigatoriedade de servir em júris nos tribunais provinciais.

Tais estruturas — bem documentadas no Egito — podem agora ser confirmadas em outras regiões do Império, reforçando a imagem de Roma como um Estado altamente organizado, com um sistema de supervisão jurídica que alcançava até as áreas mais remotas.

O enigma do papiro

O papiro P. Cotton foi encontrado no Deserto da Judeia, possivelmente em uma caverna usada como refúgio durante a Revolta de Bar Kokhba. Sua preservação é um mistério, uma vez que documentos judiciais raramente sobrevivem fora dos arquivos romanos. Historiadores sugerem que o julgamento talvez nunca tenha chegado a uma conclusão devido à eclosão do conflito, levando o acusado a se esconder e a levar o documento consigo.

Seja como for, trata-se de um daqueles achados raros — uma descoberta extraordinária que oferece um vislumbre inédito da administração da justiça nas províncias romanas da Judeia e da Arábia. O documento lança luz não apenas sobre os mecanismos jurídicos do Império, mas também sobre as tensões políticas e sociais que definiram a época, particularmente em uma região onde a resistência a Roma era constante.

Poder, ontem e hoje

Além disso, o documento esclarece o funcionamento das elites políticas de Roma, demonstrando como o Império regulava a economia e combatia fraudes, mesmo em seus territórios mais distantes. Sugere também que os romanos viam com desconfiança atividades ilegais durante períodos de instabilidade política, interpretando-as como uma ameaça potencial ao seu domínio.

Afinal, a política e o poder não mudaram tanto assim desde aquela época.

Uma versão deste artigo foi publicada em janeiro de 2025.

Imagem | Israel Antiquities Authority (Autoridade de Antiguidades de Israel)

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