"Roma de barro" na Hispânia amava jogos de tabuleiro e vinho: sabemos disso graças a um misterioso sítio arqueológico em Aragão

Em Cabeza Ladrero, arqueólogos encontraram vestígios de jarras e peças de jogos de tabuleiro

Agora, querem desvendar o mistério: por que o assentamento foi abandonado se tinha água e terras férteis?

Imagens | Wikipedia
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
pedro-mota

PH Mota

Redator
pedro-mota

PH Mota

Redator

Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

1851 publicaciones de PH Mota

Quando pensamos na Roma antiga, a primeira imagem que nos vem à mente é a de patrícios de toga, o Coliseu, legionários e dignitários reunidos no Senado. No entanto, essa é apenas uma parte do Império: a "Roma de mármore". Como o arqueólogo Ángel A. Jordán resumiu recentemente em entrevista ao El Periódico, há outra parte igualmente importante e muito menos conhecida: a "Roma de barro", composta pelas pessoas que viviam longe da metrópole e dedicavam seus dias ao trabalho, à bebida e ao lazer, que passavam fome, amavam e choravam seus mortos.

Esta última Roma é o que Jordán e seus colegas estão gradualmente desvendando em Cabeza Ladrero, um sítio arqueológico em , na província de Saragoça.

Num lugar em Aragão…

Talvez não seja o sítio mais conhecido da Espanha, mas Cabeza Ladrero provou ser um verdadeiro tesouro para arqueólogos interessados ​​na história de Aragão. Localizado no sopé dos Pirenéus, perto de Sofuentes, o terreno foi ocupado durante séculos e desempenhou um papel fundamental na estrada romana encomendada por Augusto que atravessava a região.

Por esse motivo, desde 2016, pesquisadores têm realizado diversas campanhas para explorar os segredos de um assentamento que, estima-se, abrangia 19 hectares e se estendeu da Idade do Bronze Final à Antiguidade Tardia, entre os séculos VI e IX d.C., um período que deixou uma riqueza de vestígios. No ano passado, por exemplo, foi anunciada a descoberta de uma estrada romana.

Por que isso é notícia?

Uma nova escavação acaba de começar no sítio arqueológico. A informação foi revelada há alguns dias pelo El Periódico de Aragón, que também conversou com o diretor do projeto, Ángel A. Jordán, sobre o objetivo da equipe para este ano: esclarecer por que a população diminuiu, algo difícil de entender com os dados coletados até o momento.

"É uma cidade que, à primeira vista, tinha água, pois está localizada em uma área com muitas nascentes; é uma região privilegiada com terras agrícolas muito férteis... É um grande mistério o porquê de a cidade ter deixado de ser habitada. No século VII, ela já não existia mais", explica o especialista. A história de Cabeza Ladrero pode, portanto, se estender do século IX ou VIII a.C. até os dias atuais, embora se acredite que tenha atingido seu auge durante o período romano.

Um enigma, duas Teorias

Embora se espere que as escavações solucionem o mistério, Jordán e sua equipe já têm algumas teorias. Uma das hipóteses é que o assentamento tenha sucumbido a ataques externos. "No ano passado, as escavações começaram a revelar alguns elementos curiosos. Pequenos vestígios estão aparecendo, indicando a presença de fogo; cinzas estão surgindo em diferentes partes da rua, o que nos leva a crer que pode ter sido abandonado devido a algum evento violento", admite ao El Periódico.

"Considerando que a cidade não data do século VII e que há sinais de destruição, podemos estar diante de algum tipo de ataque, especialmente dos Bagaudae, grupos rebeldes que atuaram no Vale do Ebro durante os séculos V e VI e saquearam diversas cidades da região", acrescenta o especialista.

Original

A segunda hipótese é que uma doença tenha dizimado os habitantes locais. Como lembra Jordán, sabe-se que no século VI houve "uma brutal epidemia de Peste Negra" que teve consequências devastadoras.

"Estima-se que em muitas partes do império, até 25% da população tenha morrido", explica o diretor do projeto arqueológico, antes de mencionar que há evidências de outro fenômeno: uma migração populacional para Los Bañales, um assentamento romano localizado não muito longe de Cabeza Ladrero, que se tornou uma cidade próspera.

"Roma de Barro"

Além de sua relevância geopolítica, seu papel no sistema viário ou os detalhes de sua história, há outro motivo pelo qual Cabeza Ladrero é tão especial: ela nos oferece uma janela para a "Roma de Barro", aquela que completa a imagem da "Roma de Mármore" que o cinema costuma transmitir e que moldou o estereótipo do império. Afinal, no sítio aragonês, os arqueólogos encontraram muito mais do que estradas e marcos antigos.

Jarras e jogos de tabuleiro

Durante as escavações, os pesquisadores encontraram jarras que demonstram sua predileção por bebidas e diversas peças que os especialistas acreditam terem feito parte de um antigo jogo de tabuleiro.

"Eles eram pessoas que viviam, bebiam e roubavam uns dos outros; mas também amavam, e pudemos ver isso muito claramente na necrópole", relata Jordán ao El Periódico. "De fato, eles brincavam porque precisavam se divertir, e do contrário ficavam entediados. Organizavam torneios, e as crianças tinham seus brinquedos."

Imagens | Wikipedia 1 e 2

Via | El Periódico de Aragón

Inicio