No Museu Britânico, há um busto do século I do imperador Vespasiano que esconde um segredo fascinante: originalmente, ele não retratava Vespasiano, mas sim Nerão. A mudança só aconteceu porque um escultor usou seu cinzel para alterar as feições de Nerão — um dos governantes com pior reputação de Roma — e deixá-lo parecido com o novo líder.
Esse processo, conhecido na arqueologia como recarving (re-entalhe), era muito comum na Roma Antiga. Para entender a fundo essa tendência, as pesquisadoras Francesca Bologna e Raffaella Bucolo analisaram nada menos que 2.028 esculturas imperiais feitas ao longo de três séculos.
Por que os romanos faziam isso?
Durante muito tempo, os especialistas acreditaram que se tratava de uma decisão puramente prática: uma forma de economizar tempo, dinheiro e reaproveitar mármore caro. No entanto, o novo estudo mostra que o fenômeno era muito mais complexo, misturando limites técnicos com forte propaganda política.
Curiosamente, o hábito não funcionava da mesma forma em todas as épocas. Durante a dinastia dos Antoninos (século II d.C.), por exemplo, o "reciclagem" de rostos foi totalmente abandonado. O motivo? A moda da época exigia que os imperadores usassem barbas volumosas e cabelos compridos. Como as estátuas antigas tinham rostos raspados e cabelos curtos, faltava pedra para esculpir as novas barbas. Tirar mármore é fácil, mas criá-lo onde não há é impossível.
Hispania: a capital da 'reciclagem'
A descoberta mais surpreendente da pesquisa é que a re-escultura não acontecia de forma igual pelo império. Em média, apenas 8% de todas as estátuas romanas preservadas foram recicladas.
- Na cidade de Roma, o número fica em torno de 11%.
- No Norte da África e na Ásia Menor, a taxa cai para menos de 5%.
- Já na Hispania (região que hoje engloba a Espanha e Portugal), o índice dispara para impressionantes 19%.
Isso significa que, na península ibérica, a chance de um busto ser transformado era quase o triplo do resto das províncias. Isso acontecia pela distância dos grandes centros e pela necessidade das elites locais de mostrarem lealdade rápida ao novo governo, alterando estátuas de imperadores tiranos (como Calígula) para a imagem de líderes respeitados.
A 'cultura do cancelamento' da antiguidade
Essa prática estava diretamente ligada à damnatio memoriae (condenação da memória), o castigo político mais temido de Roma. Quando um imperador era odiado ou deposto, o Senado ordenava que sua existência fosse apagada da história. Seu nome era raspado de monumentos públicos e suas estátuas eram destruídas ou redesenhadas.
Por outro lado, às vezes o objetivo era a translatio memoriae (transferência de memória). Nesse caso, um novo imperador reciclava de propósito o busto de um governante muito querido do passado para associar sua imagem à dele, usando a arte como pura propaganda de legitimidade.
Os quatro níveis de "gambiarra" romana
As arqueólogas identificaram que os escultores usavam quatro métodos diferentes para mudar a identidade das peças, dependendo do orçamento e do tempo:
Apenas a placa: O método mais simples. Não mudavam nada no rosto, apenas raspavam o nome antigo na base de pedra e escreviam o novo.
Mudança parcial: O artista alterava levemente as feições, mas deixava pistas do rosto anterior de propósito, para que o povo soubesse quem havia sido "cancelado".
Mudança frontal (O mais comum): Como as estátuas ficavam em locais altos, o escultor alterava apenas a parte da frente do rosto (52% dos casos) e deixava a nuca e as laterais intocadas para poupar trabalho.
Transformação total de 360º: O nível mais complexo. A peça inteira era refeita, apagando qualquer detalhe do cabelo ou pescoço do imperador anterior, como no caso do busto de Nerão-Vespasiano.
No fim das contas, a arqueologia prova que a política de apagar o passado não é uma invenção da internet moderna: os romanos já faziam isso há 2.000 anos, usando apenas martelo e cinzel.
Imagens | Wikipedia, Pierre Phaneuf (Flickr) y Steve Drolet (Flickr)
Texto traduzido e adaptado do site Xataka Espanha.
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