A nova ideia China para impulsionar sua natalidade: hotéis de luxo para mulheres que acabaram de dar à luz

Há um conceito que explica isso: “zuo yue zi”, um ritual de cuidados pós-parto com séculos de antiguidade

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Na China nascem cada vez menos bebês, mas isso não significa que os partos e o atendimento às mulheres que acabaram de dar à luz deixaram de ser um negócio. Pelo contrário. Embora a taxa de natalidade do gigante asiático esteja em queda, há uma indústria em expansão que acelerou nos últimos anos e já movimenta centenas de milhões de euros: o atendimento pós-parto de luxo, que transformou a medicina tradicional chinesa em um mercado cada vez mais lucrativo, no qual chegam a ser pagas dezenas de milhares de dólares por um mês de cuidados especiais.

Há um termo que explica isso: “zuò yuè zi” — literalmente, “sentar o mês”. Dito assim, talvez pareça um pouco estranho, mas traduz bem sua essência: zuo yue zi (坐月子) é um ritual de cuidados pós-parto da medicina tradicional chinesa que coloca o foco nas mães e basicamente defende o repouso e o isolamento.

A ideia é facilitar a recuperação da mãe durante os dias e semanas posteriores ao parto, algo que busca conseguir por meio de uma série de orientações de alimentação, descanso e higiene. Diz-se que suas origens podem remontar a mais de 2 mil anos, à dinastia Han, o que não impede que continue exercendo influência na China do século 21.

A maior recomendação é o descanso. Daí a ideia de “sentar o mês”. O zuo yue zi sustenta que os partos são experiências exaustivas para as mulheres, tanto física quanto mentalmente, por isso recomenda que, durante o puerpério (as semanas seguintes ao parto), as mães descansem. Nada de levantar pesos, nem realizar tarefas exaustivas ou caminhar longas distâncias. "Algumas mulheres são tão rigorosas que não saem da cama durante as primeiras duas semanas após o parto", comentou à BBC Kity Wu, que, em 2017, trabalhava como neurologista em Londres.

Uma prova de que o zuo yue zi continua arraigado na sociedade chinesa é que a própria Wu, neurologista, cumpriu esse confinamento pós-natal. Não é a única orientação desse ritual, que recomenda evitar comidas e alimentos "frios", reduzir a exposição a correntes de ar e limitar os esforços durante 30 ou 42 dias, dependendo de como o parto se desenvolveu. Antigamente, inclusive, pedia-se às mães que não tomassem banho nem lavassem o cabelo, hábitos considerados prejudiciais à saúde.

O cuidado que virou luxo

Há empresas que viram nos cuidados pós-parto uma verdadeira mina de ouro. A ideia é aproveitar o quanto a filosofia do zuo yue zi está arraigada na China para profissionalizar o atendimento às mães, modernizá-lo e até mesmo (para quem pode pagar) dar a ele uma camada de exclusividade.

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Por que passar essas semanas de repouso após o parto em casa, da cama ao sofá da sala, quando você pode se hospedar no luxuoso andar de um hotel Four Seasons? Por que deixar que seu marido e sua sogra cuidem de você quando pode estar cercada de enfermeiras disponíveis 24 horas por dia, instrutores de ioga, especialistas em amamentação e reabilitação pós-parto e (é claro) pediatras para o seu pequeno?

Em 2018, havia na China mais de 3 mil centros especializados em atendimento pós-natal e cuidados inspirados no zuo yue zi. E, desde então, o negócio não parece ter sofrido. Pelo contrário. Nem todos os centros de atendimento às mães são voltados para o mercado de luxo, mas há indícios de que estão em plena expansão.

Pagando caro

Há alguns dias, o site Luxury Tribune divulgou um dado revelador: se, em 2018, o setor de atendimento pós-parto movimentava na China 9,3 bilhões de yuans (R$ 7,2 bilhões), em 2022 já chegava a 22,3 bilhões (R$ 17,3 bilhões). Se essa tendência não se reverter, a Frost & Sullivan já prevê que, no fim desta década, serão ultrapassados os 100 bilhões de yuans (R$ 78 bilhões), com um crescimento anual próximo de 24% a partir de 2024.

Talvez pareça muito dinheiro, mas há centros especializados em cuidados durante o puerpério que cobram verdadeiras fortunas: em 2018, o South China Morning Post mencionou um deles nos arredores de Xangai que cobrava uma tarifa de 10.900 dólares (R$ 57 mil) por mês. E nem de longe era o mais caro.

Em outro, a estadia com serviço "premium" custava mais de R$ 290 mil por mês. A revista Vogue traz uma referência um pouco mais atualizada: em 2024, afirmou que uma estadia de 28 dias em um centro Saint Bella custava entre 21 mil e 105 mil dólares (entre R$ 110 mil e R$ 549 mil), o que não impedia que algumas usuárias estendessem sua hospedagem para 40 ou quase 80 dias. 

Em seu site, a Saint Bella garante "atendimento profissional para a mãe e o bebê", o que inclui desde tratamentos e acompanhamento após o parto até planos personalizados de amamentação, massagens, banhos, palestras sobre maternidade, um cardápio de resort cinco estrelas, consultas com nutricionistas ou oficinas de pintura, entre muitas outras coisas.

A Luxury Tribune afirma que a empresa aumentou suas receitas em pelo menos 30% no ano passado, ultrapassando a marca de 1 bilhão de yuans, equivalente a R$ 778 milhões.

Outros negócios

As clínicas de luxo não são as únicas que exploram o negócio dos cuidados pós-parto. Outra figura importante, além de bastante ligada à tradição chinesa, são as pui yuet, babás especializadas em cuidar de bebês e mulheres que acabaram de dar à luz. Em 2023, contratar os serviços de uma pui yuet experiente em Hong Kong custava entre 8.100 e 34.100 dólares (entre R$ 42 mil e R$ 178 mil). E isso por 30 dias como interna. Sua função, assim como o zuo yue zi, ganha popularidade no Ocidente.

Em 2025, a taxa de natalidade da China caiu para 5,63 nascimentos por cada mil mulheres, um mínimo histórico que afunda ainda mais o patamar atingido em 2023. Para empresas como a Saint Bella, o que realmente importa, no entanto, não é quantas crianças nascem, mas como e onde nascem. O valor pesa muito mais do que o volume.

À medida que a sociedade chinesa muda, aumenta o número de mulheres que dão à luz depois dos 30 anos e entram na maternidade com carreiras profissionais consolidadas, boas qualificações e uma situação financeira fortalecida após anos de renda. Com a redução do número de filhos, as famílias chinesas também estão mais dispostas a aumentar o dinheiro que investem em seus cuidados. Tudo isso se soma a outra tendência de fundo: o crescimento do mercado de luxo nacional chinês.

Imagem | Kevin Liang (Unsplash)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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