Cientistas descobrem que nem todas as estradas romanas levavam a Roma – outras cidades eram mais bem conectadas

Um novo estudo analisou a malha viária da Antiguidade e encontrou respostas surpreendentes, revelando uma verdade fundamental sobre a Europa clássica

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Bárbara Castro

Redatora

Todos os caminhos levam a Roma – ou será que não? Em um ditado popular tão conhecido, é de se esperar que haja algum fundo de verdade. No entanto, pesquisadores da Universidade de Aarhus (Dinamarca) e da Queen Mary University de Londres decidiram colocar a infraestrutura do Império Romano à prova.

Os resultados revelam um cenário bem mais complexo e que contraria o clichê tradicional – com uma exceção fundamental.

Roma não era o centro do mundo da Europa antiga

Simulações feitas a partir de uma reconstrução detalhada da malha viária mostram com clareza que Roma só parecia estar no centro de tudo. Sua localização na península itálica prejudicava uma posição dominante na malha rodoviária. Afinal, a massa de terra projetada sobre o Mar Mediterrâneo funcionava como uma extensão periférica — tanto em termos geográficos quanto de tráfego.

Os fluxos simulados de transporte terrestre fluíam quase como uma rota secundária em direção ao centro da península. Outros eixos apresentavam uma intensidade de tráfego muito maior, especialmente aqueles que conectavam metrópoles e capitais provinciais, como Ancira (atual Ancara, na Turquia), Corinto (Grécia) ou Bizâncio (atual Istambul).

Esta última cidade, que mais tarde entraria para a história como Constantinopla, exercia um papel crucial no tráfego terrestre por ser o grande ponto de conexão entre a Europa e a Ásia.

À esquerda, você vê a importância das vias dentro das províncias contornadas em branco. À direita, destaca-se a relevância do grande corredor principal como rota de transporte pelo Império. (Fonte da imagem: Nature, Network science reveals the structure and lasting impact of the Roman road system) À esquerda, você vê a importância das vias dentro das províncias contornadas em branco. À direita, destaca-se a relevância do grande corredor principal como rota de transporte pelo Império. (Fonte da imagem: Nature, Network science reveals the structure and lasting impact of the Roman road system)

No geral, a análise indica o maior volume de tráfego nesta rota: o eixo viário mais central (no sentido de relevância para o Império) corria ao longo da costa norte-africana. De lá, continuava a leste, contornando o Mediterrâneo, e subia em direção ao norte, através do Levante. A partir desse ponto, seguia para o oeste, cortando a atual Turquia, e atravessava Bizâncio rumo aos Bálcãs, passando ao norte de Roma pela região de Milão.

O estudo faz questão de pontuar um detalhe essencial diante dessa aparente desvalorização de Roma: a pesquisa considera exclusivamente o trânsito terrestre. No transporte marítimo e fluvial, a capital continuava sendo hipercentral — além de manter sua supremacia política, militar, econômica e social. O sistema de transportes romano simplesmente não existiria sem as embarcações — e abastecer Roma seria uma missão impossível sem elas.

Em viagens de longa distância, os barcos superavam qualquer transporte por terra, houvesse ou não estradas pavimentadas. Roma era "central para o tráfego naval mediterrâneo, mas não particularmente central na malha viária romana", segundo o coautor Tom Brughmans.

Como sabemos tanto sobre as estradas romanas?

A base de dados utilizada foi a "Itiner-e" — uma espécie de atlas digital da malha rodoviária romana. No ano anterior, a equipe responsável pelo projeto disponibilizou um mapa digital público com quase 300.000 quilômetros de estradas romanas.

O mapa retrata a rede reconstruída por volta do ano 150 d.C., período que marca o auge da expansão territorial do Império. Os autores ainda sustentam que a representação permanece válida para um intervalo mais amplo, cobrindo de maneira geral do século II ao século IV.

Ao todo, a base reúne 299.171,31 quilômetros de estradas. Desse total, cerca de 8.000 quilômetros são comprovados por evidências arqueológicas diretas, enquanto 269.000 quilômetros foram reconstruídos por métodos científicos. A comunidade arqueológica adota diversas técnicas que apontam dados com alto grau de certeza — ou, em termos simples: todos os indícios convergem para a existência de vias romanas ao longo dessas rotas.

Restam cerca de 22.000 quilômetros. Esses trechos hipotéticos preenchem lacunas na malha onde não há registros, achados ou fontes históricas preservadas. Ainda assim, modelos estatísticos avançados indicam uma alta probabilidade de estarem corretos.

Pérolas escondidas no banco de dados

Além disso, a pesquisa joga luz sobre facetas muitas vezes ignoradas das estradas romanas: durante a construção, os engenheiros serpenteavam pelo terreno para se adaptar com inteligência ao relevo. Por esse motivo, os trechos em linha reta eram, em média, consideravelmente mais curtos do que nas nossas rodovias modernas.

Nos Alpes, contudo, os romanos intervieram de forma drástica. A imponente cadeia de montanhas literalmente atrapalhou os planos de Roma desde o início de sua expansão como potência. Por isso, a região reúne uma quantidade acima da média de cortes de terreno, terraplanagens, muros de contenção e, em casos excepcionais, até túneis. Essas obras monumentais de engenharia não eram a regra, mas mostram até onde o Império chegava quando precisava resolver um gargalo logístico a qualquer custo — mesmo que consumisse recursos colossais.

Quando sobrepomos a malha rodoviária atual do Norte da África, da Europa e do Oriente Médio (a extensão aproximada do território romano) às rotas da Antiguidade, um padrão se torna evidente:

De forma simplificada, praticamente onde passavam as artérias principais da época existem equivalentes modernos hoje. Contudo, a concentração e a dispersão populacional contemporânea alteraram essa dinâmica:

  • Ao redor de metrópoles como Paris, Marselha, Madri e outras, existem hoje muito mais estradas.
  • Em regiões que antigamente tinham peso estratégico imenso, como Grécia, Ásia Menor (atual Turquia) e Norte da África, a densidade da malha viária era proporcionalmente maior do que a atual.

Graças a uma infraestrutura brilhante, que garantia a autonomia funcional das províncias ao mesmo tempo em que as mantinha conectadas, a Roma antiga prosperou. Foi essa engrenagem que permitiu sustentar a capital com todos os recursos necessários — sem que, para isso, todas as estradas precisassem terminar em Roma.

Matéria traduzida de GameStar*

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