Em 1922, um engenheiro americano construiu uma casa com quase 100 mil jornais: 100 anos depois, ela ainda está de pé

215 camadas de papel e uma cola à base de farinha substituíram o revestimento de madeira; o experimento surpreendente permanece de pé até hoje como museu

Morar em meio a papel reciclado: na famosa "Paper House", em Massachusetts, não apenas as paredes, mas também os móveis são feitos de milhares de jornais.
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Fabrício Mainenti

Redator

Jornais são feitos para uso breve: a gente lê, dobra, talvez passe adiante – e, na maioria das vezes, eles logo vão parar na reciclagem de papel.

Em Rockport, uma pequena cidade de cerca de sete mil habitantes no estado americano de Massachusetts, existe, porém, uma casa que há mais de um século tem páginas de jornal em suas paredes. Mais tarde, até mesmo parte da mobília passou a ser feita de jornal.

Quem iniciou esse experimento incomum foi o engenheiro mecânico Elis F. Stenman, em 1922, segundo o site da própria instituição. Ele construiu uma casa de veraneio cujas paredes são, em grande parte, feitas de folhas de jornal coladas umas às outras.

Mas a chamada "Paper House" (Casa de Papel) não é feita inteiramente de papel.

215 camadas de jornal formaram a parede

A estrutura básica, bem como o piso e o telhado, são de madeira; a chaminé é de tijolos. Isso significa que a estrutura de sustentação da casa é convencional.

O que é incomum acontece "apenas" no meio do caminho.

Para as paredes, Stenman colou páginas de jornais antigos, uma camada sobre a outra. O resultado foram paredes com cerca de dois centímetros e meio de espessura, compostas por aproximadamente 215 camadas de papel.

A cola utilizada tem uma composição surpreendentemente simples: segundo a sobrinha-neta de Stenman, trata-se de uma mistura de farinha e água, à qual foram adicionados, entre outros ingredientes, cascas de maçã.

Originalmente, o papel deveria servir apenas como camada de isolamento, relata a revista Spaces. O engenheiro planejava revestir as paredes com madeira posteriormente.

Mas, ao perceber que a estrutura funcionava bem daquela forma, ele dispensou o revestimento.

Segundo sua sobrinha-neta, Stenman estava curioso para ver o que aconteceria com os jornais expostos.

O papel não se sustenta sozinho há 100 anos

O fato de a casa ainda estar de pé e aberta para visitação hoje em dia não significa, porém, que Stenman tenha descoberto um material de construção indestrutível ao usar papel de jornal.

Pelo contrário: ele selou a camada externa com verniz para protegê-la das intempéries. Ao longo das décadas, as paredes também receberam novas camadas de verniz diversas vezes. Além disso, hoje em dia, partes do edifício contam com proteção adicional contra a chuva e outros agentes ambientais.

No entanto, o experimento não se limitou às paredes

Móveis que se tornaram um arquivo de notícias

Depois de concluir as paredes e passar a usar a casa para fins particulares, Stenman começou a fabricar também móveis a partir de jornais.

Para isso, porém, ele trabalhava o papel de uma maneira bem diferente: enrolava-o em tubos estreitos e firmes, cortava-os no comprimento necessário e, em seguida, unia-os com cola ou pregos.

Com o tempo, surgiram diversas mesas, cadeiras, estantes, luminárias, uma escrivaninha especial e até mesmo um relógio de pé e um piano. No caso do piano, o instrumento em si foi apenas revestido com os rolos de jornal.

Para algumas peças, Stenman não utilizava jornais quaisquer, mas sim edições muito específicas.

Foi o caso, por exemplo, da escrivaninha, que incorpora reportagens sobre o voo sem escalas de Charles Lindbergh de Nova York a Paris, em 1927. Já para a carcaça de um rádio, ele utilizou jornais que abordavam a campanha presidencial de Herbert Hoover em 1928.

O relógio de pé, por sua vez, foi confeccionado com jornais de todas as capitais dos então 48 estados americanos. Embora o Alasca e o Havaí já fizessem parte dos Estados Unidos naquela época, eles só foram admitidos como 49º e 50º estados em 1959.

Assim, parte dos móveis não é composta apenas por papel de jornal aleatório, mas por notícias específicas de sua época — sendo, em certo sentido, testemunhos históricos sob dois aspectos.

Até hoje, é possível decifrar manchetes e trechos de texto nas paredes e no mobiliário.

Eram realmente 100 mil jornais?

Muitas vezes, a "Paper House" (Casa de Papel) é descrita como uma casa feita de mais de 100 mil jornais. No entanto, essa afirmação não é totalmente precisa.

Um folheto histórico menciona expressamente cerca de 100 mil exemplares de jornais, considerando a casa e os móveis em conjunto.

Por outro lado, algumas descrições posteriores atribuem esse número exclusivamente à casa ou às suas paredes.

A propósito, Stenman e sua esposa, Esther, utilizaram a construção como casa de verão até 1930. E, mesmo naquela época, visitantes já vinham para admirar a construção incomum.

Anos mais tarde, a "Paper House" transformou-se em um pequeno museu, preservado até hoje e ainda administrado pela família Stenman.

De papel velho a documento histórico

Os jornais registram o que é importante em um determinado dia e, na maioria das vezes, acabam indo parar na reciclagem pouco tempo depois.

Em Rockport, aconteceu exatamente o oposto. Eles se tornaram algo permanente, sem que seu conteúdo original desaparecesse — embora apenas uma pequena fração possa ser lida.

Imagem de capa | Library of Congress

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