Não é nenhuma surpresa o fato de que os preços dos combustíveis tenham subido bastante nos últimos meses. O conflito bélico entre os EUA e o Irã foi o pivô dessa crise, fazendo com que o estreito de Ormuz (por onde passa a maior parte do petróleo do mundo) fosse bloqueado e desencadeando uma escalada de preços sem precedentes. Isso não afetou apenas os motoristas, mas também transportadores, mercadorias, aviação e praticamente tudo o que precisa de combustível atualmente.
Até mesmo um país como os EUA, que parecia completamente protegido dos problemas de combustível, está sentindo o desequilíbrio global na cadeia de fornecimento de petróleo. Em alguns postos da Alemanha ou da Itália, o diesel já se aproxima dos 3 euros (R$ 17,70) por litro. A cadeia de fornecimento está sufocada e as refinarias não estão dando conta.
Segundo o Boletim Semanal do Petróleo da Comissão Europeia, a média em toda a UE estava em 1,907 euro (R$ 11,20) por litro para a gasolina e 2,028 euros (R$ 11,94) para o diesel em 7 de setembro de 2026. O preço do diesel na Alemanha ficou em 2,34 euros (R$ 13,84) por litro naquela mesma semana, muito acima da média de dez anos do país, de 1,48 euro (R$ 8,75). A França está um pouco abaixo, perto dos 2,20 euros (R$ 13). Os lugares mais caros da Europa (Países Baixos, Dinamarca, Alemanha, Finlândia e Bélgica) são os que estão mais próximos da faixa de 2,40 a 2,60 euros (R$ 14,20 a R$ 15,37).
Como chegamos até aqui
Como mencionamos no início, a alta remonta ao fim de fevereiro, quando eclodiu a guerra entre EUA, Israel e Irã, interrompendo o tráfego pelo estreito de Ormuz, um ponto de estrangulamento para aproximadamente um quinto dos fluxos mundiais de petróleo. A Reuters informou em maio que o petróleo Brent superou os 110 dólares (R$ 650) por barril, seu nível mais alto desde 2022. O diesel reagiu com maior intensidade, superando em vários países os 2 euros (R$ 11,80) por litro.
Um relatório do grupo de pesquisa CREA estima que os preços do diesel e da gasolina em todo o mundo tenham disparado 59% desde o início da guerra, em fevereiro, acrescentando dezenas de bilhões de euros em custos imprevistos de importação de combustível nas principais economias europeias.
Nos EUA, a média nacional do preço do diesel atingiu seu máximo histórico, superando o recorde de 2022. Os caminhoneiros pagavam cerca de 5,85 dólares (R$ 30,10) por galão em todo o país no início de setembro, quase 60% a mais do que os aproximadamente 3,71 dólares (R$ 19,10) por galão que pagavam um ano antes, chegando a 7,70 dólares (R$ 40) por galão na Califórnia. Em meados de setembro, as médias nacionais estavam em torno de 6 dólares (R$ 30,90) por galão, à medida que a guerra entre os EUA e o Irã continuava interrompendo o tráfego marítimo pelo estreito de Ormuz.
O diesel está batendo recordes apesar de o petróleo bruto em si estar mais barato do que durante o pico de 2022. O diesel nos EUA atingiu um recorde histórico de 5,901 dólares (R$ 30,30) por galão em 8 de setembro, mesmo quando o petróleo bruto era negociado cerca de 28 dólares (R$ 144) por barril abaixo de seu nível de 2022. A diferença entre os dois, conhecida como “margem de refino” ou “crack spread” (ou seja, a margem de lucro que as refinarias obtêm ao transformar o petróleo bruto em combustível pronto), atingiu níveis inéditos.
O crack spread do diesel nos EUA atingiu um recorde histórico de 100 dólares (R$ 514) por barril e três das maiores refinarias do país, Marathon Petroleum, Valero e Phillips 66, lucraram juntas 12,6 bilhões de dólares no segundo trimestre de 2026. Portanto, não é que esteja faltando petróleo, mas sim que a capacidade mundial de refiná-lo e transformá-lo em diesel foi reduzida.
O que está reduzindo essa capacidade
Há duas guerras que estão agravando uma à outra. A Ucrânia tem atacado refinarias russas, o que levou Moscou a restringir as exportações de diesel, enquanto os ataques do Irã nas proximidades do estreito de Ormuz também atingiram as refinarias dos aliados do Golfo. O próprio diretor de operações da Valero, Gary Simmons, contou que os dois conflitos, juntos, paralisaram refinarias que representam cerca de 5 milhões de barris diários de capacidade. Andy Lipow, analista independente, estima que cerca de 8% do diesel necessário para atender à demanda mundial está atualmente interrompido.
Os analistas veem os EUA caminhando para uma média anual recorde para o diesel, algo que provavelmente não será igualado pela gasolina, já que ela entra em seu declínio de outono. Na Europa, a limitação é menos grave por enquanto, pois os preços estão altos e voláteis, mas ainda se mantêm abaixo dos 3 euros (R$ 17,70) mesmo nos países mais caros. Uma possível mudança depende menos do fornecimento de petróleo bruto do que da rapidez com que as refinarias danificadas na Rússia e no Oriente Médio voltem a operar, sendo que os reparos podem levar muitos meses.
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
Ver 0 Comentários