O acesso das mulheres à educação e ao mercado de trabalho avançou consideravelmente ao longo das últimas décadas, mas isso não significa que a igualdade tenha chegado da mesma forma a todos os espaços. Um caso descoberto em 2018 no Japão mostrou isso de maneira particularmente grave: a Universidade de Medicina de Tóquio admitiu que manipulava os resultados do vestibular para reduzir a entrada de mulheres no curso de medicina. A instituição alterava as notas das candidatas e favorecia candidatos homens, uma prática que ocorria há anos. O objetivo era manter a proporção de mulheres admitidas abaixo de determinado limite, sob a justificativa de que muitas médicas poderiam abandonar ou reduzir a carreira depois de se casar e ter filhos.
Universidade alterava notas para manter menos mulheres entre os aprovados
O esquema não se limitava a uma preferência informal por candidatos homens. A Universidade de Medicina de Tóquio interferia diretamente nas notas do vestibular, alterando a pontuação dos participantes para mudar quem teria chances de ser aprovado. Segundo a investigação citada pelo The Guardian, no exame de 2018, a universidade reduziu em 20% a pontuação de todos os candidatos na primeira etapa e, na sequência, acrescentou pelo menos 20 pontos aos candidatos homens. A única exceção envolvia homens que já haviam sido reprovados quatro vezes. Segundo as conclusões da investigação, mecanismos semelhantes eram utilizados havia anos.
A lógica por trás da manipulação também foi descoberta e revelada A universidade queria limitar a quantidade de mulheres admitidas porque partia da ideia de que elas poderiam interromper ou encurtar suas carreiras depois de terem filhos. Uma fonte ouvida pela imprensa japonesa chegou a justificar a prática afirmando que mulheres frequentemente deixam de exercer a medicina quando se casam e formam uma família.
O problema é que essa justificativa transformava uma dificuldade existente no mercado de trabalho em um critério para impedir que mulheres chegassem à profissão. No Japão, mulheres apresentam altos níveis de formação universitária, mas ainda enfrentam dificuldades para permanecer no mercado de trabalho, especialmente depois da maternidade. As longas jornadas de trabalho, a concentração das responsabilidades domésticas e os cuidados com filhos e familiares são fatores que dificultam essa permanência.
Escândalo revelou um problema maior dentro da seleção médica
A Universidade de Medicina de Tóquio admitiu, em 2018, ter manipulado notas de exames para limitar a entrada de mulheres no curso
A manipulação das notas foi descoberta durante uma investigação que originalmente apurava outro tipo de favorecimento. A universidade era acusada de ter facilitado a admissão do filho de um funcionário influente do Ministério da Educação. Segundo a investigação, o candidato já havia sido reprovado três vezes e recebeu 20 pontos adicionais, o suficiente para colocá-lo pouco acima da nota de corte.
A apuração também revelou suspeitas de que antigos dirigentes da instituição teriam recebido dinheiro de pais interessados em tratamento preferencial para seus filhos, incluindo possíveis aumentos artificiais nas notas. Os advogados responsáveis pela investigação afirmaram que seria necessária uma apuração maior para dimensionar completamente as irregularidades.
O caso se destacou na mídia porque a seleção deveria funcionar como uma etapa objetiva para medir quem poderia ingressar na formação médica. Quando a instituição alterou o resultado com base no gênero do candidato, a prova deixou de ser apenas uma avaliação acadêmica. Para as mulheres afetadas, a barreira não estava relacionada ao desempenho apresentado no exame, mas a uma expectativa sobre o que poderiam fazer com a própria carreira no futuro.
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