Vila na Alemanha cobra aluguel de 88 centavos desde 1521, mas moradores precisam cumprir regras rígidas e rezar 3 vezes ao dia

Considerada a comunidade de habitação social mais antiga do mundo, a Fuggerei mantém o aluguel simbólico e tradições que atravessaram cinco séculos

Fuggerei
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Natália P. Martins

Redatora

No sul da Alemanha existe um conjunto de casas onde o aluguel anual custa apenas 88 centavos de euro. O valor é real e permanece ligado a uma tradição iniciada em 1521. Localizada em Augsburg, a Fuggerei é considerada a comunidade de habitação social mais antiga do mundo ainda em funcionamento.

Para conseguir uma casa no local, os moradores precisam atender a critérios específicos, ser católicos e cumprir uma tradição pouco comum: rezar três vezes por dia pela família que criou a comunidade há mais de cinco séculos

Vila foi criada há mais de 500 anos por um dos homens mais ricos do mundo

A história da Fuggerei começou no século XVI, quando o comerciante Jakob Fugger, conhecido como Jakob, o Rico, decidiu financiar a construção de uma comunidade destinada a moradores pobres de Augsburg.

A fundação foi estabelecida oficialmente em 23 de agosto de 1521. A proposta era oferecer moradia a cidadãos que enfrentavam dificuldades financeiras, mas ainda tinham condições de trabalhar e buscar uma vida independente — permitindo aos moradores recuperar a estabilidade financeira. 

Fuggerei2 Vila está de pé há mais de 500 anos. Foto: Divulgação/Fugger

A comunidade cresceu ao longo dos séculos e atualmente ocupa cerca de 15 mil metros quadrados. São 67 casas com 142 apartamentos, além de uma igreja própria e outros espaços utilizados pelos moradores. Cerca de 150 pessoas vivem atualmente no complexo. 

Aluguel custa apenas 88 centavos desde 1521

Quando a Fuggerei foi criada, o aluguel anual foi estabelecido em um florim renano. Na época, a quantia correspondia aproximadamente ao salário de uma semana de um trabalhador artesanal.

O valor foi mantido ao longo dos séculos. Hoje, considerando a conversão monetária do antigo florim, ele equivale a aproximadamente € 0,88 por ano de aluguel-base. Apesar do valor baixo, as despesas de funcionamento, como serviços e manutenção, são cobradas separadamente.

Quem pode morar na Fuggerei?

Apesar do aluguel simbólico, não é qualquer pessoa que pode simplesmente se candidatar a uma das casas. As regras históricas determinam que os moradores sejam católicos, necessitados e cidadãos de Augsburg

O candidato também precisa estar em situação de vulnerabilidade financeira, mas a proposta da fundação é atender pessoas que procuram recuperar sua autonomia, e não apenas quem está em situação de indigência.

Três orações por dia fazem parte do acordo

Um dos detalhes mais curiosos sobre a vila é a regra das orações.  Quem vive no complexo deve rezar três vezes por dia pela família Fugger e pelos fundadores da comunidade. A tradição prevê um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e o Credo dos Apóstolos.  

A obrigação religiosa faz parte de um princípio presente desde a fundação da comunidade. Jakob Fugger criou a comunidade não apenas como um projeto social, mas também como uma obra ligada à sua fé e à busca pela salvação de sua alma. Mais de cinco séculos depois, essa parte da proposta original continua sendo aplicada.

Fuggerei5 Turistas são bem vindos como visitantes. Foto: Divulgação/Fugger

Moradores pagam multa de voltarem para casa depois do horário 

A comunidade é cercada por muros e possui portões que fecham às 22h. Quem chega depois desse horário ainda pode entrar, mas precisa pagar uma taxa ao vigia noturno. Segundo a administração da Fuggerei, a cobrança é de 50 centavos após as 22h e de € 1 depois da meia-noite.

Como a Fuggerei consegue se manter?

Atualmente, a manutenção da comunidade é financiada por diferentes fontes, incluindo rendimentos de atividades florestais, imóveis e turismo. A cobrança de ingressos dos visitantes também ajuda a preservar o complexo.  

Fuggerei recebe visitantes diariamente e mantém museus, uma residência histórica aberta à visitação e uma exposição instalada em um antigo bunker da Segunda Guerra Mundial.  

Imagens: Divulgação/Fugger

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