Você já deve ter reparado, especialmente nas redes sociais, que muitos jovens do Ocidente, inclusive brasileiros, têm incorporado hábitos associados à China em suas rotinas. Beber água quente em vez de bebidas geladas, tomar chás, comer mingau no café da manhã, praticar tai chi e usar roupas inspiradas na tradição chinesa viraram conteúdo recorrente no TikTok, Instagram e outras plataformas.
A tendência ganhou o nome de Chinamaxxing e começou como uma brincadeira da internet, mas passou a revelar algo mais complexo sobre a relação da Geração Z com bem-estar, trabalho e estilo de vida. Por trás dos memes e da estética, especialistas apontam uma busca por alternativas à cultura ocidental marcada pela pressa, pela hiperprodutividade e pelo esgotamento.
O que é o Chinamaxxing e por que hábitos chineses viralizaram
O Chinamaxxing é uma tendência que combina o nome da China com “maxxing”, uma gíria da internet usada para indicar a ideia de levar determinada prática ao máximo. O termo passou a ser usado por jovens ocidentais que começaram a experimentar, de maneira séria ou bem-humorada, diferentes hábitos associados ao cotidiano e à cultura chinesa.
Nas redes sociais, isso aparece de algumas formas. Usuários publicam vídeos preparando água quente, chás de ervas e mingau de arroz, praticando tai chi ou qigong, usando pantufas dentro de casa e vestindo jaquetas inspiradas nos trajes tradicionais da dinastia Tang. Sino-brasileiros também têm aproveitado o alcance da tendência para compartilhar dicas sobre costumes, alimentação e hábitos chineses em seus próprios perfis, aproximando essas práticas de quem acompanha o conteúdo no Brasil. Algumas publicações tratam essas práticas como uma espécie de ritual de bem-estar, enquanto outras exageram os comportamentos justamente para criar humor. Veja um vídeo:
O fenômeno chegou a transformar elementos muito específicos da cultura chinesa em objetos de desejo. A embalagem dos doces White Rabbit, uma guloseima tradicional da China, viralizou entre usuários ocidentais por seu visual retrô, inspirando tatuagens, roupas e capas de celular.
Mas a tendência não se resume só às redes. Alguns jovens passaram a viajar para a China para conhecer de perto cidades, paisagens e costumes que haviam descoberto nas redes sociais. A experiência mistura o interesse pela infraestrutura moderna e pela tecnologia chinesa, com experiências ligadas à medicina tradicional, spas, acupuntura e outros aspectos do cotidiano.
Fascínio pela China: entenda o que leva jovens ocidentais a adotar hábitos chineses
Se você ainda não se deparou com algum conteúdo sobre hábitos chineses nas redes sociais, provavelmente vai encontrar em algum momento. Afinal, tem se tornado cada vez mais comum ver jovens ocidentais compartilhando vídeos mostrando uma rotina inspirada em costumes da China. Mas o que será que está por trás desse hábito? O movimento está sendo visto como uma resposta ao cansaço, à instabilidade econômica e a uma cultura de trabalho cada vez mais orientada pela produtividade.
Para muitos jovens ocidentais, essas práticas associadas à China representam justamente o contrário dessa lógica. Beber água quente, preparar um chá, fazer exercícios tranquilos pela manhã e reservar tempo para determinados rituais são apresentados como maneiras de desacelerar.
Essa diferença ajuda a explicar a força da tendência nas redes. Enquanto parte do conteúdo de bem-estar ocidental transforma meditação, exercícios e alimentação em ferramentas para aumentar o desempenho, o Chinamaxxing aposta no equilíbrio e na rotina. A ideia de trabalhar até a exaustão como sinal de sucesso também perdeu espaço entre muitos jovens, que passaram a valorizar horários flexíveis, tempo livre e limites entre trabalho e vida pessoal.
A popularização de hábitos chineses no Ocidente também levanta uma questão sobre apropriação cultural
Pessoas de um país reproduzindo costumes de outro não é nenhuma novidade. Ao longo da história, comidas, roupas, músicas, hábitos e tradições foram incorporados por diferentes sociedades. Nas redes sociais, porém, esse processo acontece em uma velocidade muito maior e pode transformar um costume cultural em tendência em questão de dias. Mas existe um detalhe que acaba passando despercebido por alguns: o Chinamaxxing sob a perspectiva da apropriação cultural.
Isso não significa que todo jovem que adota um hábito chinês esteja praticando apropriação cultural. Há uma diferença entre conhecer uma tradição e incorporá-la à rotina com respeito a simplesmente transformar seus elementos em uma estética passageira. O problema mesmo surge quando práticas culturais complexas são retiradas de seu contexto e apresentadas apenas como “truques” de bem-estar ou tendências exóticas. É o caso de práticas como tai chi, qigong e determinados costumes ligados à alimentação e à medicina tradicional chinesa, que possuem contextos culturais muito mais complexos do que os vídeos curtos das redes sociais conseguem mostrar.
Ao mesmo tempo, o Chinamaxxing também pode funcionar como uma porta de entrada para uma aproximação maior com a cultura chinesa. Alguns jovens que chegaram ao tema por meio de memes passaram a pesquisar a cultura chinesa, acompanhar criadores sino-brasileiros e viajar para a China para conhecer cidades, paisagens e costumes pessoalmente.
Com isso, o fenômeno parece revelar menos um desejo de “se tornar chinês” e mais uma insatisfação com determinados aspectos da vida ocidental. Nas redes sociais, a China passou a representar, para parte desses jovens, uma alternativa associada a menos correria, mais equilíbrio e uma rotina menos orientada pela produtividade.
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