Neurologistas comprovaram: meia hora de tricô por dia protege a memória após os 70 anos melhor do que as palavras cruzadas

A repetição dos pontos é uma atividade mais complexa do que parece, envolvendo coordenação, concentração e memória enquanto a peça ganha forma

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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Quem olha para uma peça de tricô pronta pode não perceber quantas tarefas acontecem ao mesmo tempo durante sua produção. Cada ponto depende de movimentos coordenados, atenção à sequência e percepção do que está sendo formado. A atividade envolve coordenação motora fina, planejamento, atenção e percepção visual, mantendo o cérebro envolvido com a execução e o acompanhamento de cada etapa. 

Essa combinação de estímulos pode ser interessante para o envelhecimento cerebral, especialmente a partir dos 70 anos. A prática também pode ajudar a reduzir o estresse, fator que interfere na memória e no sono, embora as informações disponíveis não permitam afirmar que meia hora diária de tricô seja comprovadamente superior às palavras cruzadas. 

Cada ponto exige que o cérebro coordene movimento, atenção e memória

Tricotar parece uma tarefa simples quando o padrão já é conhecido, mas cada sequência de pontos exige que diferentes habilidades trabalhem ao mesmo tempo. As duas mãos precisam se movimentar de forma coordenada, os olhos acompanham o trabalho e a pessoa precisa lembrar a ordem dos pontos enquanto confere se o resultado está correto. Essa combinação envolve áreas relacionadas ao movimento, como o cerebelo, além de regiões do lobo frontal associadas à atenção e à memória de trabalho. As habilidades visoespaciais também entram em cena, já que é necessário observar a distância entre os pontos e perceber se o desenho mantém a simetria esperada.

Existe ainda outro componente: a repetição. Ao repetir determinados movimentos, o cérebro desenvolve um tipo de aprendizado chamado memória procedural, relacionado à capacidade de realizar ações aprendidas sem precisar pensar conscientemente em cada etapa. É diferente do que acontece em uma atividade predominantemente verbal. As palavras cruzadas, por exemplo, trabalham principalmente vocabulário, memória semântica e redes relacionadas à linguagem. Já o tricô acrescenta uma camada motora e visual ao exercício.

Isso não significa que uma atividade é melhor do que a outra. A ideia é que quanto mais variados forem os estímulos, mais diferentes redes cerebrais podem ser envolvidas. Alternar atividades que exigem linguagem, movimento, planejamento e percepção pode ser uma maneira mais eficaz de manter sempre o cérebro ativo. O tricô também tem um componente que não depende diretamente dos pontos: o ritmo. A repetição dos movimentos pode ajudar a desacelerar e diminuir a sensação de estresse e ansiedade, funcionando para algumas pessoas de maneira como se fosse uma meditação ativa. Essa parte importa porque o estresse também está relacionado à memória. Níveis elevados de estresse podem prejudicar a consolidação das informações e afetar o sono, outro elemento importante para o funcionamento da memória.

Meia hora de tricô pode ser um hábito, mas o cérebro também gosta de variedade

trico Tricotar exige atenção aos detalhes, coordenação entre as mãos e acompanhamento contínuo da sequência de pontos, além de poder favorecer o relaxamento.

Se a ideia é transformar o tricô em uma atividade regular, 30 minutos por dia aparecem como um período de prática que pode ser facilmente incorporado no dia a dia. O mais importante é criar uma rotina consistente, com padrões que sejam desafiadores sem se tornarem frustrantes. Também é possível aumentar gradualmente a dificuldade. Começar com pontos simples e depois experimentar novos padrões obriga o cérebro a aprender sequências diferentes, identificar erros e planejar os movimentos seguintes.

A atividade pode ser adaptada para quem tem limitações nas mãos ou dificuldades de visão. Fios mais grossos, pontos maiores, agulhas leves, boa iluminação e pausas tornam o exercício mais confortável, especialmente para pessoas com artrite ou outras dificuldades nas articulações. Para quem não gosta de tricotar, o princípio pode ser aplicado a outras atividades manuais. Crochê, tecelagem, modelagem, marcenaria simples e instrumentos musicais que exigem movimentos coordenados dos dedos também combinam aprendizado, coordenação e atenção.

O ponto central, portanto, não está necessariamente no tricô em si, mas em manter o cérebro diante de uma tarefa que exija movimento, concentração, repetição e aprendizado, de preferência de uma maneira prazerosa o suficiente para fazer parte da rotina.

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