Tendências do dia

O "Saci Pererê" da China: conheça o Dújiaogui, a criatura de uma perna só que usa chapéu de bambu e adora pregar peças e desafiar os viajantes

 Com origens que remontam à China antiga, o ser de uma perna só atravessou culturas e ganhou novas características nas lendas coreanas

Kui
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora

Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

866 publicaciones de Laura Vieira

Se você é brasileiro, certamente já ouviu histórias assustadoras do Saci Pererê, um personagem do folclore conhecido por ter uma única perna, usar um gorro vermelho e se divertir pregando peças nos humanos. Do outro lado do mundo, o folclore do Leste Asiático também guarda uma criatura com uma característica bastante parecida: o Dújiaogui, ou Dokkakgwi, um ser sobrenatural de uma perna só associado principalmente às tradições da Coreia e China. Com aparência grotesca, chapéu cônico de bambu e uma força impressionante, ele costuma aparecer em histórias envolvendo viajantes, florestas e desafios de luta. Apesar da aparência assustadora, a criatura não é necessariamente maligna e pode tanto provocar humanos quanto recompensá-los.

O Dújiaogui tem raízes em uma antiga criatura do folclore chinês

Embora o Dújiaogui seja mais conhecido e desenvolvido dentro do folclore coreano, suas raízes são associadas a antigas tradições da China. Uma das referências mais antigas aparece no Shanhaijing, o Clássico das Montanhas e dos Mares, uma obra chinesa que reúne descrições de criaturas sobrenaturais, lugares fantásticos e seres ligados às montanhas.

Captura De Tela 2026 08 17 113531

Entre essas figuras está o Kui, uma criatura ou espírito de uma perna só associado às regiões montanhosas. Em algumas tradições, a presença do Kui estava relacionada às tempestades e aos fenômenos naturais. O ser também podia trazer problemas para quem o ferisse, mas havia versões em que sua descida às comunidades rurais estava ligada à proteção ou à prosperidade das plantações.

Com o passar do tempo, a imagem dessa criatura se transformou. Depois do período das Seis Dinastias, a figura passou a incorporar outros elementos do imaginário popular chinês. Em diferentes tradições, seres de uma perna só foram associados à riqueza e à boa fortuna, mas também a monstros que poderiam causar problemas aos humanos. Existem ainda diferentes interpretações para a origem dessa imagem. Algumas teorias relacionam a criatura à aparência de uma árvore ou à representação de uma pessoa com uma perna só, enquanto outras apontam para antigos símbolos ligados à fertilidade.

Foi nesse longo processo de transformação cultural que surgiu o Dokkakgwi, que preservou a característica mais marcante das antigas tradições chinesas, mas ganhou uma identidade própria no folclore coreano. Essa origem também ajuda a entender uma diferença importante. O Dokkakgwi não é simplesmente um fantasma. Enquanto os gwisin são associados às almas de pessoas mortas, os dokkaebi são seres sobrenaturais associados a objetos inanimados que teriam adquirido uma alma, como objetos domésticos antigos, vassouras ou utensílios marcados pelo contato com sangue humano. 

Uma perna só, força sobrenatural e gosto por travessuras: conheça o Dokkakgwi

Nas histórias populares coreanas, o Dokkakgwi não é só um monstro que aparece para assustar. Ele é retratado como uma criatura travessa, imprevisível e moralmente ambígua, capaz de ajudar, atrapalhar ou simplesmente se divertir às custas dos humanos. A aparência do monstro também ajuda a criar uma imagem bastante peculiar: ele é descrito como um humanoide peludo e grotesco, com uma única perna extremamente forte, dois olhos brilhantes e um satgat, o tradicional chapéu cônico de bambu usado na Coreia. Também pode aparecer usando um dorongi, uma espécie de capa de chuva feita de palha, principalmente em representações ligadas a dias escuros e chuvosos.

Uma de suas principais diversões é desafiar viajantes para partidas de ssireum, uma luta corporal coreana. Como possui uma força muito superior à dos humanos, o Dokkakgwi quase sempre leva vantagem. Em algumas versões das histórias, porém, descobrir o ponto fraco da criatura é suficiente para derrotá-la: sua única perna ou o lado esquerdo do corpo.

Quando não está procurando alguém para enfrentar, o ser pode simplesmente brincar com as pessoas. Entre suas travessuras estão esconder objetos, fazer viajantes se perderem na floresta e pregar peças sem uma razão específica. Em determinadas narrativas, porém, a relação com os humanos pode terminar de maneira mais favorável, com a criatura se tornando amiga de quem conseguiu vencê-la.

Embora a comparação com o Saci Pererê seja inevitável pela presença de uma perna só e das travessuras, as duas criaturas pertencem a tradições culturais completamente diferentes e carregam histórias próprias.


Inicio