O sistema "Pix" foi criado com um objetivo claro: tornar as transações financeiras mais rápidas, práticas e seguras. Com a evolução da tecnologia e a chegada de novas funcionalidades — como o uso da biometria para autenticação — a expectativa era de que o sistema se tornasse ainda mais protegido contra fraudes.
Apesar disso, especialistas em segurança digital alertam que essa percepção pode ser enganosa. O avanço da inteligência artificial está transformando justamente essa camada de segurança em um novo ponto de vulnerabilidade.
Biometria promete mais praticidade e segurança
A autenticação por biometria, como reconhecimento facial ou digital, foi adotada como uma forma de substituir senhas e códigos, considerados mais vulneráveis a vazamentos e ataques.
Na prática, ela funciona como uma “chave única”: o próprio corpo do usuário se torna o meio de validação. Isso reduz etapas no processo e dificulta acessos não autorizados.
A biometria é vista como uma solução para agilizar transferências e reforçar a identidade do usuário. No entanto, a mesma característica que a torna prática também cria um novo risco.
Biometria deve ser utilizada um fator adicional de segurança. Foto: Unsplash
Inteligência Artificial se tornou ferrmenta para fraudes
Segundo explica Tonimar Dal Aba, gerente técnico da ManageEngine, o principal ponto de atenção está no avanço de ferramentas baseadas em IA.
Ataques com deepfakes — vídeos, imagens ou áudios falsos gerados artificialmente — estão se tornando mais sofisticados e acessíveis. Dados recentes mostram que esse tipo de fraude cresceu 126% no Brasil em 2025.
Na prática, isso significa que criminosos conseguem simular rostos e expressões com precisão suficiente para enganar sistemas de reconhecimento facial.
Diferente das senhas, biometria é insubstituível
Diferente de senhas e códigos, que podem ser alterados após um vazamento, a biometria é algo permanente.
“O grande desafio é que, ao contrário de uma senha, a biometria não pode ser alterada. Se um dado biométrico for comprometido, o impacto pode ser permanente”, explica Tonimar.
Ou seja, se um dado biométrico for comprometido — por vazamento ou fraude — ele não pode ser “resetado”. Enquanto um incidente podia ser resolvido com a troca de senha, agora existe o risco de exposição contínua de um identificador insubstituível.
Apesar disso, Del Alba explica que a biometria pode ser utilizada em conjunto com outros métodos de autenticação, trazendo mais segurança aos aplicativos e transações.
“É importante ressaltar que, se utilizada em conjunto com outros fatores de autenticação, ela confere mais camadas de proteção ao usuário, trazendo benefícios que evitam problemas de vazamento de dados e auxiliam na blindagem contra invasões.”
Como os golpes acontecem na prática
Os ataques não dependem apenas de tecnologia avançada — Tonimar explica que eles combinam IA com engenharia social.
Entre os golpes já identificados, destacam-se:
- Uso de fotos reais para abrir contas ou solicitar crédito;
- Criação de documentos falsos com imagens manipuladas por IA;
- Deepfakes em tempo real para burlar verificações em aplicativos bancários;
- Malware especializado em capturar dados biométricos.
Um dos exemplos mais recentes envolve o chamado “Picareta de ouro”, um tipo de vírus que utiliza inteligência artificial para capturar a biometria facial da vítima sem que ela perceba.
Em muitos casos, os criminosos se passam por funcionários de bancos, recrutadores ou até agentes públicos para convencer as vítimas a enviar imagens ou realizar validações falsas.
“Os principais golpes biométricos observados no Brasil incluem o uso de fotos das vítimas para abrir contas ou contratar empréstimos. Elas são obtidas por criminosos que se passam por funcionários de bancos, agentes de saúde e até mesmo recrutadores de emprego”, detalha o especialista.
Onde estão as maiores vulnerabilidades
As tecnologias mais expostas são justamente as mais populares: sistemas de reconhecimento facial utilizados em aplicativos bancários, desbloqueio de celulares e autenticação de identidade.
“As principais tecnologias vulneráveis a fraudes por biometria são aquelas que dependem de reconhecimento facial, pois com o avanço da tecnologia e da IA, os cibercriminosos estão conseguindo burlar essa camada de segurança por meio de fotos e vídeos enganosos”, explica.
Isso inclui processos como:
- Abertura de contas;
- Recuperação de senha;
- Autorização de transferências;
- Acesso a serviços digitais.
Além do setor financeiro, outras áreas podem impactadas. Plataformas governamentais, como o gov.br, também têm sido alvo de tentativas de fraude, especialmente contra idosos.
Setores como telecomunicações e controle de acesso físico (condomínios e empresas) também podem ser alvo, com riscos que vão desde roubo de dados até invasões físicas.
Boas práticas podem reduzir os riscos
Com a praticidade da autenticação biométrica, usuários podem passar a ignorar outras medidas de segurança. Isso pode levar ao abandono de práticas essenciais, como o uso de senhas fortes e autenticação em múltiplas etapas.
Especialistas recomendam utilizar autenticação em múltiplas para aumentar a proteção. Foto:Shutterstock
Segundo Tonimar Dal Aba, esse comportamento cria um cenário perigoso, em que uma única camada passa a concentrar toda a segurança do usuário.
Diante desse cenário, o especialista defende que a segurança seja feita com múltiplas camadas. Para empresas, isso inclui:
- Autenticação multifator;
- Validação de dispositivos;
- Análise de geolocalização;
- Uso de IA para detecção de fraudes;
Para usuários, as recomendações são comportamentais:
- Desconfiar de solicitações de envio de fotos ou vídeos;
- Evitar compartilhar dados sensíveis por mensagens ou redes sociais;
- Utilizar apenas aplicativos e sites oficiais;
- Manter múltiplos fatores de autenticação sempre ativos.
“Além disso, é crucial a necessidade da conscientização sobre os principais meios de ação dos criminosos hoje em dia para que, assim, os usuários consigam identificar e evitar golpes. Educar a população sobre segurança digital pode ajudá-la a evitar armadilhas que ocorrem em todas as indústrias”, explica Tonimar.
Foto de capa: Shutterstock
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