Bióloga chinesa quer fazer mulheres menstruarem a cada 3 meses como a única saída contra o maior pesadelo demográfico da Ásia

Pesquisas tentam prolongar a fertilidade feminina em meio ao colapso populacional da China, que pode perder metade da população até o fim do século

Teste de gravidez em cima de um calendário
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Natália P. Martins

Redatora
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Natália P. Martins

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A China enfrenta uma crise demográfica sem precedentes. Para tentar conter o declínio, cientistas do país investigam formas de prolongar a vida reprodutiva feminina — incluindo uma hipótese que parecia improvável: fazer com que as mulheres menstruem apenas a cada três meses.

A proposta é liderada pela bióloga Hongmei Wang, pesquisadora do State Key Laboratory of Stem Cell and Reproductive Biology, em Pequim. Especialista em desenvolvimento embrionário, Wang conduz experimentos com células-tronco e ovários para enfrentar um cenário alarmante: segundo projeções das Nações Unidas, a população chinesa pode encolher pela metade até 2100 caso as tendências atuais persistam.

China enfrenta queda histórica nas taxas de natalidade

Em 1979, o governo chinês implementou a política do filho único como tentativa de controlar o crescimento populacional acelerado. Com isso, durante décadas, famílias foram limitadas a ter apenas um filho.

Agora, a situação se inverteu. Mesmo após o governo permitir dois filhos em 2015 e três em 2021, a taxa de natalidade continuou despencando.

Com a baixa taxa de fertilidade, o país sofre, consequentemente, com a queda da força de trabalho, o aumento dos custos de saúde e o envelhecimento populacional

Essa combinação de fatores transforma a crise demográfica em uma das maiores preocupações estratégicas do país.

Pesquisa tenta prolongar a fertilidade feminina preservando óvulos por mais tempo

Uma das linhas de pesquisa lideradas por Hongmei Wang investiga a possibilidade de desacelerar o "consumo" natural de óvulos ao longo da vida reprodutiva. A estratégia consiste em reduzir a frequência da ovulação e, consequentemente, da menstruação.

Diferente dos homens, que produzem espermatozoides continuamente, as mulheres nascem com um estoque finito de óvulos. O esgotamento dessa reserva marca o início da menopausa. Para Wang, adiar esse processo em apenas um ano já teria um impacto social imenso.

A teoria é que, ao ovular menos vezes, a mulher preservaria óvulos saudáveis por mais tempo, prolongando sua "vida útil" reprodutiva. Por enquanto, a hipótese está sendo testada em laboratório com modelos animais.

Cientistas estudam redução da frequência da ovulação

A própria pesquisadora alerta que prolongar a fertilidade não é um desafio simples. Isso porque bloquear a ovulação também interfere na produção de hormônios fundamentais, como o estrogênio.

“Se inibirmos a ovulação, podemos preservar os óvulos disponíveis, mas, ao mesmo tempo, inibimos a produção de estrogênio”, afirmou a pesquisadora em entrevista ao jornal espanhol El País.

O hormônio é vital para a saúde óssea, o metabolismo, o sistema cardiovascular e o equilíbrio emocional. Por isso, qualquer intervenção precisaria compensar essas perdas para não prejudicar a saúde geral da mulher.

Terapias com células-tronco avançam em testes

A equipe da cientista também vem testando terapias regenerativas com células-tronco para restaurar a fertilidade. Em um estudo marcante, pesquisadores injetaram células-tronco humanas nos ovários de macacas estéreis, resultando no nascimento de um filhote saudável.

Além disso, o laboratório realizou um pequeno ensaio clínico com 63 mulheres diagnosticadas com falência ovariana prematura (menopausa precoce) — condição que causa infertilidade precoce.

Segundo Wang, após transplantes de células-tronco, quatro participantes conseguiram engravidar e ter filhos, um avanço significativo para a medicina reprodutiva.

Debate sobre fertilidade vai além da ciência

Apesar dos avanços, Hongmei Wang reconhece que a ciência talvez não consiga responder sozinha ao problema demográfico.

Ela própria admite que existe uma diferença entre aquilo que é tecnicamente possível e aquilo que as pessoas realmente desejam fazer.

“Atrasar a menstruação ou prolongar a vida reprodutiva pode ser viável do ponto de vista técnico”, afirmou a pesquisadora. “Mas outra questão completamente diferente é saber se as pessoas querem isso.”

Foto de capa: Shutterstock

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