A China enfrenta uma crise demográfica sem precedentes. Para tentar conter o declínio, cientistas do país investigam formas de prolongar a vida reprodutiva feminina — incluindo uma hipótese que parecia improvável: fazer com que as mulheres menstruem apenas a cada três meses.
A proposta é liderada pela bióloga Hongmei Wang, pesquisadora do State Key Laboratory of Stem Cell and Reproductive Biology, em Pequim. Especialista em desenvolvimento embrionário, Wang conduz experimentos com células-tronco e ovários para enfrentar um cenário alarmante: segundo projeções das Nações Unidas, a população chinesa pode encolher pela metade até 2100 caso as tendências atuais persistam.
China enfrenta queda histórica nas taxas de natalidade
Em 1979, o governo chinês implementou a política do filho único como tentativa de controlar o crescimento populacional acelerado. Com isso, durante décadas, famílias foram limitadas a ter apenas um filho.
Agora, a situação se inverteu. Mesmo após o governo permitir dois filhos em 2015 e três em 2021, a taxa de natalidade continuou despencando.
Com a baixa taxa de fertilidade, o país sofre, consequentemente, com a queda da força de trabalho, o aumento dos custos de saúde e o envelhecimento populacional.
Essa combinação de fatores transforma a crise demográfica em uma das maiores preocupações estratégicas do país.
Pesquisa tenta prolongar a fertilidade feminina preservando óvulos por mais tempo
Uma das linhas de pesquisa lideradas por Hongmei Wang investiga a possibilidade de desacelerar o "consumo" natural de óvulos ao longo da vida reprodutiva. A estratégia consiste em reduzir a frequência da ovulação e, consequentemente, da menstruação.
Diferente dos homens, que produzem espermatozoides continuamente, as mulheres nascem com um estoque finito de óvulos. O esgotamento dessa reserva marca o início da menopausa. Para Wang, adiar esse processo em apenas um ano já teria um impacto social imenso.
A teoria é que, ao ovular menos vezes, a mulher preservaria óvulos saudáveis por mais tempo, prolongando sua "vida útil" reprodutiva. Por enquanto, a hipótese está sendo testada em laboratório com modelos animais.
Cientistas estudam redução da frequência da ovulação
A própria pesquisadora alerta que prolongar a fertilidade não é um desafio simples. Isso porque bloquear a ovulação também interfere na produção de hormônios fundamentais, como o estrogênio.
“Se inibirmos a ovulação, podemos preservar os óvulos disponíveis, mas, ao mesmo tempo, inibimos a produção de estrogênio”, afirmou a pesquisadora em entrevista ao jornal espanhol El País.
O hormônio é vital para a saúde óssea, o metabolismo, o sistema cardiovascular e o equilíbrio emocional. Por isso, qualquer intervenção precisaria compensar essas perdas para não prejudicar a saúde geral da mulher.
Terapias com células-tronco avançam em testes
A equipe da cientista também vem testando terapias regenerativas com células-tronco para restaurar a fertilidade. Em um estudo marcante, pesquisadores injetaram células-tronco humanas nos ovários de macacas estéreis, resultando no nascimento de um filhote saudável.
Além disso, o laboratório realizou um pequeno ensaio clínico com 63 mulheres diagnosticadas com falência ovariana prematura (menopausa precoce) — condição que causa infertilidade precoce.
Segundo Wang, após transplantes de células-tronco, quatro participantes conseguiram engravidar e ter filhos, um avanço significativo para a medicina reprodutiva.
Debate sobre fertilidade vai além da ciência
Apesar dos avanços, Hongmei Wang reconhece que a ciência talvez não consiga responder sozinha ao problema demográfico.
Ela própria admite que existe uma diferença entre aquilo que é tecnicamente possível e aquilo que as pessoas realmente desejam fazer.
“Atrasar a menstruação ou prolongar a vida reprodutiva pode ser viável do ponto de vista técnico”, afirmou a pesquisadora. “Mas outra questão completamente diferente é saber se as pessoas querem isso.”
Foto de capa: Shutterstock
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