A nova moda dos ricos: pagar R$ 7.000 por um “retiro de leitura” para ler sem interrupções

Nesses retiros, pessoas se reúnem em torno do interesse comum e tentam conquistar o hábito da leitura

Retiro de leitura
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Fim de semana de fevereiro, costa galesa. Um grupo de mulheres se senta ao redor de uma mesa acompanhadas de apetitosas porções de massas e frutas. Elas se ignoram mutuamente de forma muito educada. Ninguém olha para os celulares, mas para livros volumosos que trouxeram consigo. Abrem-nos, começam a ler em silêncio, cada uma o seu, e pagam 1.200 euros (cerca de R$ 7.000) por esse estranho privilégio.

Essa é a nova categoria de viagem que surge nos EUA e no Reino Unido: os retiros de leitura. Um grupo de pessoas se reúne em uma casa rural ou em um hotel boutique durante um fim de semana para avançar em suas leituras pessoais, em um silêncio amigável e sem a obrigação de ler um livro em comum, como acontece nos clubes de leitura. Caríssimos e exclusivos, têm preços como os das empresas Page Break (entre 1.000 e 1.200 dólares por fim de semana), Ladies Who Lit (3.450 libras por quatro dias em Mallorca) e Bad Bitch Book Club (entre 950 e 1.750 dólares).

Faz sentido. Embora hoje seja vista como uma atividade solitária, a leitura como algo introspectivo é uma percepção historicamente anômala. Durante séculos, ler foi uma prática social: famílias reunidas ao redor da lareira para ouvir sermões em voz alta, mulheres compartilhando histórias enquanto costuravam, viajantes trocando livros nos vagões de trem. De fato, o surgimento da ferrovia no século 19 gerou toda uma indústria: o editor Henry Walton Smith começou a vender romances baratos nas plataformas das estações londrinas e Allen Lane instalou uma máquina automática de livros da editora Penguin (o Penguincubator) nos saguões do metrô.

Estamos lendo menos

A queda nos índices de leitura está amplamente documentada. De 2003 a 2023, a proporção de estadunidenses que leem por prazer diariamente caiu de 28% para 16%, aproximadamente 3% ao ano. O relatório de onde vêm esses dados, elaborado a partir de mais de 236.000 participantes, aponta que a queda é mais acentuada entre a população de menor renda e menor nível educacional, embora o declínio afete todos os grupos demográficos. O trabalho remoto também impactou um espaço histórico de leitura: o trajeto até o trabalho.

Mas, diante dessa queda generalizada nos índices de leitura, especialmente entre as classes mais modestas, existe um movimento de valorização da leitura como forma de lazer que desconecta do ritmo conectado e hiperativo em que vivemos. Paradoxalmente (por vir de uma rede social), a comunidade leitora do TikTok tem muito a ver com essa nova visão da leitura: com 200 bilhões de visualizações sob a hashtag booktok, essa rede social já é um motor de vendas que resgata títulos do esquecimento e impulsiona obras de autores independentes para as listas de mais vendidos.

Segundo a fundadora da The Literary League, Gabi Valladares, que organizou retiros de leitura no resort Scribner's Lodge, nas Catskills, “as férias literárias oferecem um ponto de conexão embutido”. Ela acrescenta que os passeios são “pouco exigentes” ao combinar momentos com autores e outros leitores com horas livres para, simplesmente, ler.

Por mais que a internet seja a plataforma de divulgação desse tipo de retiro e de sua filosofia, a ideia é se desligar do mundo online e recuperar a leitura sem interrupções. Como aponta Leah Price, autora de What We Talk About When We Talk About Books, o problema atual não é o trabalho, historicamente o principal concorrente da leitura, mas “a concorrência do conteúdo digital de formato curto”. O ano de 2018, quando o Wi-Fi chegou a toda a rede de metrô de Nova York, foi descrito como “horrível” para a leitura no metrô por Uli Beutter Cohen, que entrevista passageiros sobre suas leituras para sua conta no Instagram Subway Book Review.

Clubes e participantes

O Bad Bitch Book Club surgiu em 2018 como um grupo de Facebook entre amigos com interesses em comum. Em 2020, o confinamento fez a página disparar para 38.000 membros em todo o mundo, gerando cerca de 200.000 dólares anuais por meio de uma assinatura no Patreon de 14 dólares por mês. Seus acampamentos de verão em The Forks, no Maine, receberam 500 inscrições para 240 vagas distribuídas em três fins de semana.

A Page Break, fundada em 2024 por Mikey Friedman, tem uma proposta diferente: os participantes leem em voz alta (em turnos, ao que tudo indica) um mesmo romance ao longo do fim de semana, intercalando com refeições simples e atividades temáticas, aproximando-se mais da ideia de um clube de leitura tradicional. Para um retiro recente no deserto de Joshua Tree, na Califórnia, a empresa recebeu 50 inscrições para 15 vagas, que foram distribuídas por sorteio. Seu objetivo: millennials e geração Z ocupados demais para se comprometer com um clube de leitura convencional.

O perfil dos participantes é esmagadoramente feminino. Emma Donaldson, fundadora da Boutique Book Breaks (retiros em hotéis com spa pela zona rural inglesa), afirma que, até hoje, teve apenas um hóspede homem. As organizadoras atribuem esse viés à feminização da indústria editorial nas últimas décadas e a um marketing desses retiros que adota a linguagem do bem-estar: velas, sais de banho, coquetéis sem álcool, etc. A teórica DeNel Rehberg Sedo relaciona a popularidade desses clubes de leitura femininos aos grupos de conscientização das décadas de 1960 e 1970, falando de espaços que “continuam a formação das mulheres e as afastam das responsabilidades domésticas”.

A metáfora do bem-estar não é casual. Quando o debate frequentemente gira em torno de escolher entre a leitura como consumismo acelerado ou como prática reflexiva, esses retiros oferecem um ponto intermediário. A possibilidade de ler devagar, sem prestar contas a nenhum algoritmo, na companhia de outras pessoas que também não entendem por que diabos ler um livro se tornou, nos dias de hoje, algo que exige tanto esforço.

Imagem | Foto de Priscilla Du Preez no Unsplash

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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