Fomos enganados, e é hora de admitir. Durante anos, o boom das academias foi recebido com entusiasmo: ter instalações esportivas onipresentes e acessíveis para nos ajudar a sair da rotina sedentária só pode ser visto como algo positivo.
No entanto, a forma como o esporte foi introduzido em nossas vidas é profundamente problemática: conseguimos criar um "modelo compartimentado" de atividade física que está falhando em todas as frentes.
Então “ir à academia” não funciona?
Não, não é isso. Não é o que as evidências mostram. Exercícios intensos são úteis. Muito úteis. E são sempre melhores do que não fazer nada: mas a ideia de ir à academia por uma hora e pronto ignora que a unidade relevante não é a hora na academia, mas o padrão energético de 24 horas.
Vamos colocar de outra forma: por que os Hadza não queimam mais calorias do que trabalhadores de escritório, apesar de caminharem 12 km por dia? Por que os programas de academia para perder peso decepcionam sistematicamente? Ou por que a OMS começou a separar “fazer exercício” de “ficar menos sentado”?
A resposta para essas três perguntas é a mesma: a biologia evolutiva do ser humano.
Duas linhas de pesquisa que convergem para o mesmo ponto
Entre 2012 e 2018, uma equipe da Universidade Duke, coordenada por Pontzer, descobriu que o corpo não simplesmente adiciona o gasto energético do exercício à taxa metabólica basal. O que ele faz é compensar isso, reduzindo o gasto em outras funções vitais, como processos inflamatórios, reprodutivos ou de controle metabólico.
Ou seja, fazer uma hora, ou mais, de exercício intenso não necessariamente aumenta o gasto energético total.
A segunda linha de pesquisa surge da comparação entre pessoas com o mesmo peso e altura. Em 1999, a Clínica Mayo descobriu que a diferença diária de gasto energético pode ser atribuída a coisas como caminhar, ficar em pé, fazer tarefas domésticas e outros tipos de pequenos movimentos inconscientes.
O risco
A isso é preciso somar que o sedentarismo é, por si só, um fator de risco. Em 2016, Ekelund e sua equipe descobriram que são necessários entre 60 e 75 minutos diários de atividade física moderada para eliminar o excesso de risco de mortalidade associado a permanecer sentado por 8 horas ou mais ao dia.
Ou seja, uma hora de exercício não resolve o problema.
Cegueira
O problema é que o debate público não se dá conta disso. É desequilibrado: a visão dominante desde a década de 1980 considera fazer "algumas horas de exercício" como uma forma de "comprar" saúde. O longo debate sobre quantos passos dar por dia segue exatamente a mesma lógica.
A questão, como dizemos, é que as evidências deixam claro que não estamos comprando nada.
E então?
Fechamos as academias? Nada disso. O importante, à esta altura de 2026, é começar a entender que a unidade correta para pensar nossa atividade física é o dia completo.
Como diz a OMS, “mais atividade é melhor do que pouca; qualquer atividade é melhor do que nenhuma; [no entanto] reduzir o sedentarismo traz benefícios independentes” e vale a pena abordar isso à parte do exercício que fazemos.
A ideia de “treinar uma hora e depois passar o resto do dia tranquilo” não se sustenta. Ir à academia é positivo, mas não é uma solução mágica: o exercício intenso funciona como algo que se soma a deixar o sedentarismo. Não o substitui.
Texto traduzido e adaptado do Xataka Espanha.
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