Enquanto o Brasil se prepara para entrar no inverno, a Europa aguarda o início do verão. Isso significa que, por lá, os mosquitos já começam a se tornar presença constante. E os repelentes, que sempre foram um aliado importante nessa luta, começam a dar sinais de derrota. O problema é que esses pequenos insetos parecem ter desbloqueado uma nova habilidade: associar o repelente ao melhor lugar para picar.
Um estudo recente publicado na revista Journal of Experimental Biology sugere que o repelente clássico composto pela molécula sintética N,N-Dietil-meta-toluamida deixou de repelir os mosquitos e passou a atraí-los.
Nesse estudo, os pesquisadores concentraram sua atenção no Aedes aegypti, o infame mosquito transmissor da febre amarela, da dengue e do zika. Foi criado um ambiente de laboratório altamente controlado com telas, fontes de calor que simulavam sangue humano e recompensas de açúcar. Todas essas condições ideais, porém, foram combinadas com a presença do cheiro do repelente.
Após vários ciclos de exposição a essas condições ambientais, os pesquisadores observaram que os mosquitos eram capazes de aprender e criar uma associação entre o repelente e a presença de um bom local para picar.
Isso significa que, se um mosquito se atreve a atravessar a barreira criada pelo repelente e consegue picar alguém — ou, neste caso, se alimentar de açúcar —, seu cérebro é reprogramado e o repelente deixa de ser um sinal de “perigo” para se tornar um sinal de que “há comida aqui”. Os dados mostraram que, após esse condicionamento, mais de 60% dos mosquitos voltavam a procurar o cheiro do repelente, ignorando a natureza do produto.
Na vida real
Embora a mudança para uma resposta de “atração” seja uma novidade, a realidade é que os entomologistas já desconfiavam disso há bastante tempo. Um estudo de 2013 já havia demonstrado que os mosquitos desenvolviam tolerância aos repelentes. Nesse caso, verificou-se que, três horas após uma primeira exposição ao DEET, os insetos passavam a ignorar o repelente. E agora sabemos um pouco mais sobre o que exatamente acontece do ponto de vista neurobiológico.
Esses resultados foram obtidos em um ambiente muito controlado e forçando cenários bastante específicos, com recompensas garantidas. No mundo real, porém, há muito mais variáveis — um mosquito que sente o cheiro do repelente e não consegue picar (porque a concentração é alta) não recebe a “recompensa” do sangue, de modo que esse aprendizado não se consolida.
Por isso, os pesquisadores destacam a necessidade de que o repelente seja aplicado nos intervalos recomendados e na concentração adequada. Isso, porém, não elimina a necessidade de redesenhar estratégias de saúde pública para adaptá-las à plasticidade demonstrada pelos mosquitos, já que não estamos falando apenas de uma picada incômoda, mas de insetos transmissores de doenças muito importantes, como a malária e a dengue.
Imagens | Erik Karits
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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