As guerras não se limitam à linha de frente e nem terminam quando os combates cessam. Ao longo da história, elas alteraram paisagens, cidades, costumes e até comportamentos cotidianos de maneiras inesperadas, deixando transformações silenciosas que só se tornaram visíveis com o tempo.
Algumas delas não aparecem nos livros de história nem nos balanços oficiais, mas revelam até que ponto um conflito é capaz de reorganizar a própria vida em suas margens. E também a de seus animais.
Vários estudos revelaram nos últimos meses que a invasão russa da Ucrânia não apenas deixou uma marca devastadora na população civil, como também está transformando silenciosamente os animais que compartilham esse ambiente humano, especialmente os cães domésticos.
Muitos foram abandonados durante as evacuações, outros ficaram presos em territórios ocupados ou zonas de combate e, em pouco tempo, passaram de animais de estimação dependentes a sobreviventes forçados de um ambiente extremo, tornando-se uma população híbrida entre o doméstico e o selvagem.
Um estudo nascido na linha de frente
A pesquisa mais recente, publicada na revista Evolutionary Applications, analisou dados de 763 cães em nove regiões da Ucrânia graças ao trabalho conjunto de abrigos, veterinários e voluntários, incluindo zonas perigosas próximas à linha de frente.
Uma parte fundamental do trabalho foi realizada por Ihor Dykyy, zoólogo da Ivan Franko National University of Lviv, que reuniu observações enquanto atuava como voluntário junto às forças armadas ucranianas em Donetsk e perto de Kharkiv, onde conviveu com cães feridos, traumatizados pelas explosões e dependentes do cuidado improvisado dos soldados.
Segundo a autora principal do estudo, Mariia Martsiv, da University of Lviv, o início da guerra provocou uma situação especialmente dramática para os animais de estimação: alguns donos conseguiram fugir com eles, mas muitos animais foram deixados em estações de trem ou abandonados em zonas ocupadas.
Embora o estudo tenha se concentrado em cães domésticos, uma grande parte deles já não vivia sob o cuidado direto de humanos e havia passado para algo muito parecido com uma existência errante, marcada pela escassez, pelo perigo constante e pela necessidade de se adaptar rapidamente.
Os dados revelam que, em um período surpreendentemente curto, os cães da linha de frente começaram a se parecer mais com espécies selvagens, como lobos, do que com raças domésticas. Focinhos extremos, corpos mais pesados ou pelagens claras tornaram-se menos comuns, enquanto aumentaram os exemplares de menor porte, com orelhas eretas, caudas retas e menos manchas brancas.
Como explicam os pesquisadores, a guerra atua como um filtro implacável que favorece características que melhoram a sobrevivência: animais mais leves, que acionam menos minas, se escondem melhor e apresentam um alvo menor para estilhaços.
Não é evolução, é sobrevivência
Os cientistas ressaltam que essas mudanças não representam uma evolução biológica acelerada, já que o tempo decorrido é insuficiente para alterações genéticas profundas.
Na prática, o que está acontecendo, segundo os pesquisadores, é algo mais parecido com uma seleção imediata: os cães com características menos adaptadas simplesmente não sobrevivem. Também foi detectado que, nas zonas de combate, há menos animais velhos, doentes ou feridos, e que os cães tendem a se agrupar, uma estratégia típica de espécies selvagens para aumentar as chances de resistir em ambientes hostis.
O estudo indica que, apesar da aparência e do comportamento cada vez mais “selvagens”, a maioria dos cães ainda depende em parte dos humanos para se alimentar, complementando a dieta com plantas, pequenos animais ou carniça, incluindo restos de soldados mortos. Muitos foram adotados informalmente por tropas ucranianas.
No entanto, a equipe da University of Gdansk, liderada por Małgorzata Pilot, também observou casos claros de feralização: cães que já não dependem das pessoas e retornaram a uma vida completamente independente.
Embora o estudo se concentre apenas em cães, suas conclusões apontam para um problema muito maior. Como alerta o ecólogo Euan Ritchie, da Deakin University, se uma espécie tão adaptável e móvel quanto o cão está sendo afetada de forma tão profunda, as consequências para animais menos flexíveis podem ser devastadoras.
A guerra, para além da brutal tragédia humana, surge assim também como um desastre ambiental que reconfigura ecossistemas inteiros e deixa cicatrizes invisíveis muito depois que as armas se calam. Até os cães deixam de ser cães.
Imagem | Ivan Bandura, Jorge Franganillo
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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