Homem comprou ilha deserta em 1962, plantou 16 mil árvores e a transformou em santuário anti-ricos

Ilha de Moyenne é um caso único: alguém a comprou e não a transformou em mansão de férias, mas num pomar para o planeta

Imagem | Jean-Francis Martin e o documentário Um Grão de Areia no YouTube
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PH Mota

Redator
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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Mandar tudo para os ares e ir morar numa ilha é algo que, mais ou menos, todo mundo já pensou. Agora, se você vai fazer isso ou não, é outra história. Se falarmos em comprar uma ilha, o círculo se fecha para poucos, e embora a história que vamos contar não seja de hoje e não tenha os preços atuais, a realidade é que as 8 mil libras que Brendon Grimshaw pagou pela pequena ilha de Moyenne em 1962 (aproximadamente 200 mil libras hoje, cerca de R$ 1,41 milhões) lhe permitiram comprar quase três casas em sua terra natal, a Grã-Bretanha. Ele teria imóveis para especular, mas o mundo não teria o Parque Nacional de Moyenne.

Mas vamos começar do início. Brendon Grimshaw era um jornalista britânico que, depois de iniciar sua carreira em jornais populares como o Batley News e o Sheffield Star em seu país natal, mudou-se para a África, onde trabalhou em importantes veículos de comunicação como a revista East African Standard e o Tanganyika Standard. Ele tinha 37 anos e tomou uma decisão drástica: estava de férias nas Seychelles quando decidiu adquirir uma ilha de apenas nove hectares.

Por que comprar uma ilha?

Alguns dizem que, mais do que férias, ele buscava um propósito na vida: demonstrar sua paz e amor pela natureza. A BBC menciona "proteger Moyenne do desenvolvimento urbano excessivo" como seu objetivo inicial, mas é preciso dizer que até 1973 ele continuou trabalhando como jornalista e visitando a ilha nas férias. A partir dessa data, ele se despediu da profissão e se mudou para lá para criar um paraíso natural que perdurasse.

As Sheychelles começava a emergir como um destino turístico e, embora estivesse abandonada, era questão de tempo até que alguém chegasse e instalasse um resort.

Moyenne mudou completamente. A ilha estava desabitada havia meio século, com exceção de uma família de pescadores, e encontrava-se em um estado deplorável devido à negligência e à excessiva intervenção humana. Era assolada por matagais impenetráveis ​​onde reinavam espécies invasoras, como ele relata no documentário Um Grão de Areia (que antes era um livro). Nota: globalmente, o conceito de ambientalismo e cuidado com o meio ambiente estava se consolidando e começando a ganhar força (o primeiro "Dia da Terra" data de 1970).

Ele não estava sozinho nessa missão: trabalhou lado a lado com o morador local René Antoine Lafortune, um jovem de 19 anos de uma família de pescadores. Jogar tudo fora e construir um hotel cinco estrelas é muito mais fácil do que restaurar um ecossistema, algo que levou uma vida inteira, literalmente, pois Grimshaw faleceu em 2012. René morreu mais jovem, em 2007, deixando Brendon como um verdadeiro Robinson Crusoé por cinco anos.

Plano de restauração que levou uma vida inteira

Suas áreas de atuação podem ser divididas em três: reflorestamento em larga escala com espécies nativas, controle da infestação de ratos e implementação de infraestrutura.

Em "Um Grão de Areia", ele narra como a vegetação rasteira era tão densa que um coco que caísse de uma árvore não chegava ao chão e que havia apenas quatro árvores nativas altas que se destacavam, conforme relatou em entrevista à BBC. Assim, plantaram manualmente mais de 16.000 árvores de espécies como mogno, palmeiras e outras espécies endêmicas que haviam desaparecido da ilha.

No documentário, ele conta como ficou chocado com o silêncio devido à ausência de fauna: a falta de árvores frutíferas nativas e a densa camada de vegetação rasteira tornavam o local pouco atraente para pássaros, que buscam um lugar para nidificar com alimento e segurança. A reintrodução de espécies nativas e a restauração da flora atraíram mais de 200 espécies de aves.

Grimshaw também explicou que, quando chegou, não havia tartarugas-gigantes, que hoje são emblemáticas da ilha: ele introduziu e criou tartarugas-gigantes-de-aldabra (Aldabrachelys gigantea) de outras ilhas do arquipélago, que foram então marcadas para que continuassem a crescer. Hoje existem mais de 120 exemplares.

Menos visível, mas também muito útil, foi a construção de quase cinco quilômetros de trilhas para melhorar o acesso. Praticamente com picareta e pá.

Na década de 1980, ele foi inundado com ofertas de compra da ilha, inclusive de um príncipe saudita, que teria oferecido até 50 milhões de dólares. A resposta de Brendon Grimshaw não deu margem a negociações: "a ilha não está à venda". O ex-jornalista estava ficando mais velho e não tinha filhos, então, em 2009, quando Lafortune já havia falecido, ele conseguiu que o governo das Seychelles declarasse Moyenne e seu Parque Nacional como territórios protegidos.

Hoje, Moyenne possui uma importância biológica essencial para o arquipélago das Sheychelles: serve como banco de sementes e refúgio para espécies, já que, enquanto outras ilhas estão repletas de resorts, não há lojas, restaurantes ou hotéis, apenas um restaurante simples para aqueles que fazem uma excursão à ilha a partir de ilhas vizinhas, como Mahé.

Imagem | Jean-Francis Martin e o documentário Um Grão de Areia no YouTube

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