A livraria de Tóquio que tem apenas um livro no catálogo

Essa livraria muda de catálogo toda semana. Literalmente: vende um único livro e vai revezando

Livraria  Morioka Shoten / Imagem: Divulgação
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Em um beco do distrito de Ginza, em Tóquio, uma pequena sala pintada de branco abriga aquela que poderia ser considerada a livraria mais radical do mundo. A Morioka Shoten, inaugurada em maio de 2015 por Yoshiyuki Morioka, inverte a lógica comercial do livro: enquanto a indústria editorial japonesa produz aproximadamente 80.000 novos títulos por ano, este estabelecimento vende apenas um, que é renovado a cada semana.

Não é performance. A Morioka Shoten é um negócio que funciona normalmente, vendendo múltiplos exemplares de uma única obra durante seis dias consecutivos. O interior é inusitadamente vazio para uma livraria (paredes de concreto, um móvel usado como balcão, um telefone com fio) e serve de tela para exposições inspiradas no livro da vez. É um pouco o oposto absoluto da Amazon: da oferta infinita ao minimalismo na escolha.

Cada título permanece em exibição exatamente seis dias, de terça a domingo, acompanhado de instalações artísticas, objetos ou fotografias relacionados ao seu conteúdo. O espaço funciona simultaneamente como galeria e ponto de venda. A localização do projeto reforça essa dimensão simbólica: o Edifício Suzuki, construído em 1929 e protegido como arquitetura histórica, abrigou entre os anos 1930 e o fim da Segunda Guerra Mundial os escritórios da Nippon Kobo, editora que produzia a revista Nippon, que muitos consideram fundadora da indústria editorial moderna japonesa.

A abertura da Morioka Shoten em 2015 ocorreu em um momento crítico para a indústria. Duas décadas antes, em 1995, a Amazon havia iniciado suas operações, e o efeito dominó foi inevitável: as livrarias independentes dos EUA passaram de mais de 7.000 estabelecimentos em 1994 para apenas 1.651 em 2009, uma redução de 76%. O modelo de livraria física parecia obsoleto diante da rapidez da internet e dos algoritmos de recomendação. A Morioka Shoten propunha justamente o contrário: concentração, escassez deliberada e tempo para se dedicar a uma única obra.

A expressão japonesa issatsu, isshitsu significa “um quarto, um livro”. Durante oito anos, Yoshiyuki Morioka trabalhou como funcionário em livrarias de segunda mão do bairro de Kanda, tradicional distrito bibliófilo de Tóquio. Posteriormente, abriu sua própria livraria independente em Kayabacho, onde organizava lançamentos de autores que multiplicavam as vendas. A pergunta que ele se fez foi: para que manter centenas de obras se a experiência ideal acontecia com apenas uma?

O estúdio de design Takram desenvolveu a identidade visual da loja a partir de um esboço do próprio Morioka: um losango que condensa a dupla metáfora do projeto, representando simultaneamente um livro aberto e um quarto único.

A proposta se insere em uma recuperação mais ampla do comércio livreiro independente. Em 2015, registrava-se nos EUA um fenômeno curioso: as livrarias indie estadunidenses começaram a se multiplicar, em até 49%. O estudo citava fatores como a sensação de comunidade, o papel dos livreiros como curadores e a capacidade das livrarias de funcionarem como pontos de encontro. A pandemia acelerou a tendência: desde 2020, o setor cresceu 70% e, em 2024, foram inauguradas 323 novas lojas. Em 2025, foram mais de cem adicionais apenas nos primeiros meses do ano.

Os resultados comerciais do experimento confirmam a viabilidade do modelo. A Morioka Shoten já comercializou mais de 2.000 obras desde sua inauguração. O catálogo semanal já incluiu desde quadrinhos de Tove Jansson até fotografias botânicas de Karl Blossfeldt, romances de Mimei Ogawa e contos de Hans Christian Andersen, abrangendo ficção, não ficção, mangá e livros ilustrados. Em uma época que oferece acesso imediato a milhões de títulos, a abundância gera paralisia na hora de decidir. Sob esse ponto de vista, a limitação radical da Morioka não restringe, mas liberta.

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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