Seu cérebro não pede açúcar à toa quando você está ansioso

Comida pode funcionar como refúgio em momentos de estresse, mas emoções profundas, como tristeza e luto, costumam provocar o efeito contrário

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Carolina Rodrigues

Redatora
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Chegar ao fim do expediente, fechar o computador e sentir a ansiedade lá em cima pode ser a combinação perfeita para ir até a cozinha quase no automático. E, nessa hora, geralmente não é uma salada ou uma maçã que parece chamar atenção. O cérebro costuma pedir algo mais imediato, como uma pizza, um doce ou um pote de sorvete.

Mas isso não é apenas gula. É neurobiologia.

A comida como regulação emocional

A relação dos seres humanos com a comida vai muito além da necessidade de calorias para sobreviver. Ao longo da evolução, comer também se tornou uma das ferramentas mais primitivas de regulação emocional.

Mas esse mecanismo não funciona sempre do mesmo jeito. Enquanto o estresse crônico e o cansaço podem empurrar uma pessoa para alimentos ricos em carboidratos, emoções profundamente negativas, como tristeza extrema ou luto, costumam provocar o efeito oposto: o apetite simplesmente desaparece.

Por que isso acontece

Quando falamos em comer por estresse, a ciência diferencia esse comportamento da fome fisiológica, aquela que surge aos poucos e pode ser satisfeita por diferentes tipos de alimento.

No caso do estresse, o que aparece é a chamada fome emocional. Ela costuma surgir de repente e vem acompanhada de um desejo muito específico, geralmente por alimentos ricos em açúcar, gordura ou carboidratos simples.

Boa parte dessa resposta está ligada ao eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal, um sistema ativado em situações de ameaça. Quando passamos por um estresse agudo, como o risco de sermos atropelados, o corpo libera adrenalina para nos preparar para lutar ou fugir.

Nessa situação, o apetite é reduzido. Afinal, diante de um perigo imediato, o corpo não está preocupado em fazer digestão, mas em direcionar sangue e energia para os músculos.

O problema muda de figura no estresse crônico, causado por trabalho, contas, estudos ou preocupações constantes. Nesses casos, o organismo passa a liberar cortisol de forma persistente. Níveis elevados desse hormônio podem alterar os sinais de saciedade e enviar ao corpo a mensagem de que ele está em perigo constante e precisa armazenar energia rapidamente.

É um mecanismo herdado de uma época em que comida não estava sempre disponível. O corpo ainda reage como se precisasse se preparar para a escassez, mesmo vivendo em um contexto moderno em que o alimento está muito mais acessível.

O papel dos carboidratos

Nesses momentos, não buscamos apenas calorias. Buscamos uma espécie de resgate neuroquímico.

O consumo de açúcar e gordura ativa o sistema de recompensa do cérebro e libera dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer. É por isso que determinados alimentos podem funcionar, temporariamente, como um amortecedor do desconforto emocional.

Os carboidratos simples também têm relação com a serotonina, neurotransmissor ligado ao bem-estar e à calma. Ao comer um doce ou um prato de massa, o organismo facilita a chegada do triptofano ao cérebro, o que pode gerar um efeito tranquilizador real, embora passageiro.

O problema é que essa sensação pode ensinar o cérebro a repetir o comportamento sempre que o estresse aparece.

E quando é tristeza?

Se o estresse pode nos levar até a geladeira, a tristeza profunda costuma fazer o caminho contrário. Em momentos de luto, dor emocional intensa ou alguns quadros de depressão, é comum que o apetite diminua bastante.

À primeira vista, isso pode parecer contraditório. Se a comida conforta, por que ela não ajuda da mesma forma na tristeza?

A resposta está no tipo de reação biológica provocada por esse estado emocional.

O corpo em estado de alerta

O luto ou a tristeza profunda colocam o organismo em um estado de alarme diferente daquele provocado pelo estresse cotidiano. O sistema nervoso simpático fica ativado, mantendo o corpo em hipervigilância.

Enquanto isso, a digestão depende principalmente do sistema parassimpático e do nervo vago. Quando o simpático está muito ativo, o parassimpático perde força.

O resultado é uma digestão mais lenta, sensação de náusea, nó no estômago e dificuldade física para engolir ou digerir alimentos sólidos.

Quando comer deixa de ser prioridade

Em estados intensos de tristeza, o corpo passa a priorizar a sobrevivência psíquica e o processamento emocional do trauma vivido. A manutenção metabólica cotidiana fica em segundo plano.

Por isso, a comida pode perder o sabor. A dificuldade de sentir prazer também interfere na liberação de dopamina, que normalmente seria ativada por uma mordida em algo apetitoso e calórico.

A dimensão cultural da comida

Como momentos de dor podem prejudicar a alimentação e até tarefas simples, como cozinhar, muitas culturas desenvolveram rituais alimentares ligados ao luto e à morte.

Em várias tradições, familiares, amigos e vizinhos compartilham comida ou deixam refeições disponíveis para quem está passando por uma perda.

Em alguns contextos, a comida servida após um funeral também tem uma função social: reforçar os laços do grupo. Ela funciona como um lembrete concreto de que a vida continua e de que aquela pessoa não está sozinha.


Texto traduzido e adaptado do Xataka Espanha.

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