Por muito tempo, as teorias de Sigmund Freud foram vistas por parte da comunidade científica como incompatíveis com a neurociência moderna. Agora, um novo artigo sugere exatamente o contrário: uma das principais teorias atuais sobre o funcionamento do cérebro apresenta semelhanças surpreendentes com conceitos desenvolvidos pela psicanálise há mais de um século.
Segundo pesquisadores da Universidade de Oslo, unir essas duas áreas pode ajudar a construir uma compreensão mais completa sobre como a mente humana funciona.
O cérebro seria uma "máquina de previsões"
O estudo, publicado na revista Entropy (link no primeiro parágrafo), analisa a chamada teoria do processamento preditivo (predictive processing), atualmente uma das abordagens mais influentes da neurociência.
De acordo com esse modelo, o cérebro não espera simplesmente que os estímulos aconteçam. Em vez disso, ele está constantemente criando previsões sobre o que acontecerá em seguida e comparando essas expectativas com as informações que chegam pelos sentidos.
Sempre que existe uma diferença entre a previsão e a realidade, o cérebro pode ajustar suas expectativas ou reinterpretar a situação para reduzir essa discrepância.
Os pesquisadores afirmam que esse mecanismo influencia não apenas a percepção do mundo, mas também o comportamento e a forma como regulamos nossas emoções.
Freud já defendia algo parecido
Segundo os autores, Freud e outros teóricos da psicanálise já descreviam processos semelhantes, embora utilizando uma linguagem completamente diferente e antes mesmo de existirem técnicas modernas para estudar o cérebro.
Enquanto a neurociência procura entender os mecanismos biológicos envolvidos, a psicanálise se concentra em como essas experiências são vividas subjetivamente pelas pessoas.
Na visão dos pesquisadores, as duas áreas podem estar descrevendo o mesmo fenômeno por perspectivas diferentes.
O conceito de projeção ganha uma nova interpretação
Um dos exemplos apresentados no artigo é o conceito psicanalítico de projeção.
Na psicanálise, projeção ocorre quando uma pessoa atribui sentimentos, intenções ou características próprias aos outros.
Os pesquisadores sugerem que esse processo pode ser interpretado, na linguagem da neurociência, como consequência das previsões que o cérebro faz com base em experiências anteriores.
Em outras palavras, nossas vivências passadas influenciam aquilo que esperamos encontrar nas pessoas e nas situações futuras, moldando a forma como interpretamos o mundo ao nosso redor.
Isso pode ajudar a explicar alguns transtornos mentais
O trabalho também aponta possíveis implicações para a compreensão de transtornos psicológicos. Tanto a neurociência preditiva quanto a psicanálise enxergam a mente como um sistema que busca estabilidade e previsibilidade.
Nesse contexto, alguns sintomas persistentes poderiam ser entendidos como modelos mentais extremamente rígidos.
Por exemplo, uma pessoa que passou por repetidas experiências de rejeição pode desenvolver uma expectativa constante de críticas ou hostilidade. Mesmo quando a realidade não confirma essa previsão, ela continua interpretando novas situações por esse mesmo filtro.
Os autores argumentam que esses padrões permanecem porque ajudam o cérebro a reduzir a incerteza, ainda que acabem distorcendo a percepção da realidade.
A psicoterapia pode modificar essas previsões
O artigo também oferece uma possível explicação para o motivo de mudanças psicológicas profundas geralmente levarem tempo.
Muitas expectativas não ficam armazenadas apenas como pensamentos conscientes, mas também como padrões automáticos de relacionamento construídos ao longo da vida.
Por isso, experiências repetidas durante a psicoterapia podem gradualmente alterar esses modelos internos, permitindo que novas formas de interpretar pessoas e situações sejam desenvolvidas.
Um caminho para aproximar duas áreas da psicologia
O estudo defendem que a neurociência pode oferecer uma base biológica para diversas ideias desenvolvidas pela psicanálise, enquanto esta pode ajudar a explicar como esses processos cerebrais são vividos na prática pelas pessoas.
Integrar as duas abordagens pode contribuir para uma psicologia mais abrangente, capaz de considerar tanto os mecanismos neurológicos quanto a experiência subjetiva humana.
Embora o artigo seja uma proposta teórica e não apresente um experimento que comprove definitivamente essa integração, ele sugere que conceitos formulados por Freud há cerca de 130 anos talvez estejam encontrando uma nova interpretação à luz das descobertas mais recentes da neurociência.
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