A competição e os desacordos espaciais entre os EUA e a China estão entre os principais problemas geopolíticos da ciência do século 21. Poderíamos pensar que esse empenho em ser o primeiro prejudica apenas esses dois países, mas, na realidade, isso pode se tornar um problema para qualquer um que entre na corrida espacial. Há muitas questões que servem de exemplo, embora a mais recente seja a que diz respeito ao horário lunar.
Há algum tempo, já está claro que deve existir um horário padrão lunar, mas os EUA decidiram adotar um e a China, outro. A consequência é um sistema de navegação por satélite pouco robusto, que pode afetar qualquer um que queira pousar na Lua. Por enquanto, tudo indica que a NASA está mais avançada nesse sentido, mas é possível que tenha de operar sob os padrões chineses. Se não houver um acordo, o conflito está posto.
Dois horários para um único lugar
Os EUA concordaram em definir o horário lunar com base em algo chamado Tempo Lunar Coordenado (LTC, na sigla em inglês). Esse seria o horário sob o qual operariam os satélites da LunaNet, um sistema de satélites projetado pela NASA em 2019 com o objetivo de controlar o primeiro sistema de navegação do nosso satélite natural.
Por sua vez, a China decidiu estabelecer o horário com base no Lunar Time Ephemeris (LTE-440). Esse é o sistema usado para operar tanto o Queqiao-1 quanto o Queqiao-2, os dois únicos satélites de retransmissão lunar atualmente ativos. Eles foram projetados para comunicações e representam o primeiro passo rumo a um sistema de GPS lunar.
Por que isso é necessário
A gravidade é muito diferente na Terra e na Lua. Sabemos que a gravidade, além de gerar atração entre corpos, também curva o espaço-tempo. Como consequência, o tempo passa mais devagar quanto maior for a gravidade. E o que isso significa? Basicamente, que na Lua o tempo passa mais rápido — especificamente, 56 microssegundos mais rápido. Isso significa que não podemos usar o mesmo horário na Terra e na Lua. Nosso satélite natural precisa de seu próprio horário.
Os sistemas de GPS funcionam por meio da emissão de sinais temporais medidos pelos satélites. Mede-se quanto tempo o sinal do satélite leva para chegar de um ponto a outro e, assim, é possível calcular a distância. Por isso, é muito importante que os satélites e os relógios operem com o mesmo sistema de horário. Ao viajar para a Lua, seria necessário levar em conta como os satélites usados pelo GPS medem o tempo. Mas, como já vimos, China e EUA não chegaram a um acordo sobre isso. Por enquanto, a LunaNet não passa de um projeto. O sistema de GPS lunar chinês também, mas ao menos já conta com satélites. Os dos EUA ainda não foram lançados.
Por isso, se a NASA pousar na Lua sem levar em conta o sistema de horário chinês, podem surgir problemas. Uma defasagem de apenas um microssegundo no horário lunar pode resultar em erros de centenas de metros de distância. Isso pode ser muito perigoso durante uma alunissagem.
É preciso conversar
A China já testou isso. O país asiático é o único a ter pousado uma nave no lado oculto da Lua. Os sistemas de rádio terrestres não alcançam essa região do nosso satélite natural. Portanto, essa alunissagem não tripulada dependeu totalmente do Queqiao-1. Ficou demonstrado que o sistema funciona, já que a alunissagem foi um sucesso. Mas, claro, a nave estava sincronizada com o sistema de horário dos satélites.
Às vezes, esse tipo de desacordo político gera bastante frustração entre os cientistas. Eles, por sua vez, tendem a buscar consensos para trabalhar de forma mais segura. No momento, o NIST está em conversas com o Observatório da Montanha Púrpura (Zijinshan). Essa instituição é uma das principais responsáveis pela gestão de satélites chineses, de modo que suas decisões têm grande peso na escolha de um sistema de horário ou de outro. Para que todos consigam alcançar seus objetivos, desta vez será necessário trabalhar em equipe. Ressentimentos e rivalidades podem acabar atrasando a corrida espacial de ambos os lados.
Imagem | Magnific
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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