Não bastasse a crise de opiáceos nos EUA, o governo permite droga com efeitos semelhantes em postos de gasolina

Usado para aliviar dores e combater a abstinência, pesquisadores e autoridades de saúde ainda questionam os benefícios e perigos do kratom 

Kratom
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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A crise dos opioides continua sendo um dos maiores desafios de saúde pública dos Estados Unidos. Mesmo diante disso, um suplemento derivado de uma planta do Sudeste Asiático segue sendo vendido livremente em postos de gasolina, lojas de conveniência e estabelecimentos de produtos naturais em boa parte do país. Conhecido como kratom, ele ganhou popularidade por prometer aliviar dores, aumentar a energia e ajudar na desintoxicação de opióides, álcool e outras substâncias. No entanto, especialistas e órgãos de saúde alertam para os riscos de dependência, intoxicação e mortes associadas ao consumo do produto, enquanto fabricantes defendem o kratom como uma alternativa mais segura aos opioides e pressionam pela flexibilização das regras que regulam sua venda.

O que é o kratom, por que ele ficou tão popular e quais são seus efeitos?

Embora tenha se tornado conhecido recentemente no Ocidente, o kratom, derivado das folhas da árvore Caduca (Mitragyna speciosa) é utilizado há centenas de anos em países do Sudeste Asiático, como Tailândia, Indonésia e Malásia. A planta pertence à mesma família do café e suas folhas podem ser consumidas na forma de chá, pó, cápsulas, gomas ou bebidas concentradas.

folhas do kratom As folhas do kratom vêm de uma árvore da mesma família do café, mas seus principais compostos têm ação distinta e despertam preocupações entre autoridades de saúde

Nos Estados Unidos, o uso da substância aumentou significativamente nos últimos anos, impulsionado principalmente pela crise dos opioides. Muitos consumidores passaram a recorrer ao kratom como uma alternativa para aliviar dores crônicas ou reduzir os sintomas da abstinência de medicamentos como OxyContin e outros analgésicos opioides. Com o crescimento da demanda, o produto passou a ser vendido em milhares de postos de gasolina, tabacarias e lojas de conveniência.

Mas quais seriam o impacto do uso indiscriminado dessa substância? Os efeitos variam bastante conforme a dose consumida e a concentração dos alcaloides presentes na planta, principalmente a mitraginina. Em doses menores, o kratom costuma provocar:

  • aumento da disposição e da energia;
  • maior estado de alerta;
  • sensação de bem-estar e sociabilidade.

Já em doses elevadas, os efeitos se aproximam dos observados em opioides:

  • alívio da dor;
  • sedação;
  • relaxamento intenso;
  • sensação de euforia.

Apesar dessa popularidade, a comunidade científica ainda discute a segurança da substância. Alguns pesquisadores investigam seu potencial terapêutico, especialmente no tratamento da dor e da dependência de opioides, enquanto outros reforçam que ainda faltam estudos clínicos mais sólidos para comprovar benefícios e estabelecer doses consideradas seguras.

No Brasil, a situação é diferente. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) classifica a mitraginina e outros alcaloides presentes no kratom como substâncias proibidas. Ou seja, aqui, a comercialização e a importação da planta são restritas.

Entenda porque seus efeitos preocupam especialistas e quais são os riscos associados

O principal motivo de preocupação envolvendo o kratom é a forma como a mitraginina atua no organismo. O composto interage com receptores opioides presentes no cérebro, produzindo efeitos semelhantes aos de medicamentos analgésicos dessa classe, embora com intensidade diferente.

Segundo a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, esse mecanismo pode favorecer o desenvolvimento de dependência em alguns usuários. Entre os efeitos adversos já registrados estão:

  • náuseas e vômitos;
  • tontura;
  • suor excessivo;
  • coceira;
  • crises convulsivas;
  • lesões hepáticas;
  • sintomas de abstinência após interrupção do uso.

Dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) divulgados pelo The New York Times indicam que, entre 2020 e 2024, o kratom foi identificado no organismo de mais de 5.200 pessoas que morreram por overdose nos Estados Unidos. Em muitos desses casos havia também outras drogas envolvidas, mas estudos apontam que o consumo da substância está associado a um aumento significativo do risco de morte por overdose.

Essa situação ajuda a explicar a controvérsia em torno do produto. Enquanto defensores afirmam que ele pode representar uma alternativa menos perigosa do que opióides tradicionais e criticam a falta de evidências conclusivas sobre seus riscos, a FDA sustenta que nenhum produto à base de kratom foi comprovado como seguro ou eficaz para qualquer tratamento médico.

Essa discussão ganhou um novo desdobramento em uma investigação publicada pelo The New York Times. A reportagem mostrou que empresas do setor realizaram uma ampla campanha de influência junto a integrantes do governo Trump para tentar reduzir restrições ao kratom natural e concentrar a fiscalização em versões sintéticas da substância. No entanto, ainda não há evidências suficientes para considerar o kratom um produto seguro, e seu consumo continua cercado de incertezas científicas e regulatórias.



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