Nos anos 1990, muitas pessoas tinham um cacto ao lado do computador. Não era para decorar, mas sim para se proteger da radiação

O computador não emite radiação nociva, mas, mesmo se emitisse, um pequeno cacto não nos protegeria dela

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Nos anos 1990, não havia redes sociais e a palavra “viral” tinha um significado completamente diferente, permitindo a propagação de muitos mitos de credibilidade duvidosa. Um deles dizia que era preciso ter um cacto ao lado do computador para absorver sua radiação.

Acredita-se que o mito tenha surgido a partir de uma observação realizada no Instituto de Geobiologia de Chardonne, na Suíça, em 1987. Não se tratou de um experimento formal, mas da percepção dos funcionários do instituto, que afirmavam que colocar um cacto ao lado do monitor reduzia seus sintomas de fadiga e dor de cabeça após passarem muitas horas trabalhando.

A essa anedota foi acrescentada, sem links nem detalhes, a referência a “um estudo da NASA”. Não há evidências que sustentem nada disso, mas o uso de nomes institucionais bastou para que o mito se espalhasse com uma aparência de rigor científico que nunca teve.

A palavra “radiação” ganhou uma conotação muito negativa, especialmente após o desastre nuclear de Desastre de Chernobyl. No entanto, nem todos os tipos de radiação são nocivos. A radiação “ruim” é a ionizante, como os raios X ou os raios gama. Já no caso de um computador, trata-se de radiação eletromagnética de baixa frequência, não ionizante e incapaz de alterar nossas células. Este e outros mitos (como os relacionados ao 5G) surgem da falsa crença de associar qualquer tipo de radiação a algo perigoso e prejudicial.

Por que um cacto?

O fato de se recomendar um cacto, e não qualquer outra planta, tem a ver com seu alto teor de água e, claro, como a água absorve radiação, presume-se que o cacto também faria isso. Ele pode absorver radiação? Sim, mas não mais do que qualquer outro objeto: por essa lógica, uma melancia ou um galão de água ao lado do computador produziriam um efeito ainda maior.

Além disso, mesmo que o campo eletromagnético emitido por um computador fosse nocivo — o que não é o caso —, ele se propaga em todas as direções. Portanto, para nos proteger dele, seria necessário cercar toda a máquina com cactos, e não simplesmente colocar um ao lado e achar que isso basta.

Em 2018, um grupo de cientistas turcos decidiu verificar se havia alterações no campo eletromagnético ao colocar um cacto perto da tela. Eles utilizaram monitores LCD e antigos monitores de tubo, além de diferentes variedades de cactos, incluindo alguns de grande porte. Mediram o campo eletromagnético posicionando o cacto em várias posições e chegaram a uma conclusão clara: o efeito era nulo.

Embora o mito tenha sido refutado, a crença popular permaneceu, e há quem tenha se aproveitado disso. Quem? Os vendedores de cactos.

Imagem | Magnific

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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