Quem é que está lucrando com a onda de calor na Europa? A China, claro

Fabricantes de ar-condicionado como Midea e Gree passaram a transportar parte dos estoques destinados à Europa por trem, em vez de navio

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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A onda de calor que atinge a Europa tem um aspecto evidente: as temperaturas elevadas, os alertas meteorológicos e as cidades tentando funcionar sob um calor que deixa de ser uma exceção. Mas ela também revela um lado menos visível e bastante significativo: alguém precisa fabricar, vender e transportar todo esse frio que a Europa passou a necessitar.

E o que se viu neste verão é que essa oportunidade não está sendo aproveitada apenas por lojas locais e empresas de instalação. A China também vem lucrando com isso graças às suas grandes fabricantes de ar-condicionado e a uma rede ferroviária capaz de reduzir significativamente o tempo de transporte entre a China e a Europa.

A informação foi divulgada pelo órgão de planejamento econômico da China durante uma coletiva de imprensa realizada em 28 de julho. Segundo o portal Yicai, fabricantes de ar-condicionado como Midea e Gree deixaram de usar navios e passaram a utilizar a ferrovia China-Europa para transportar parte de sua carga destinada ao mercado europeu.

A mudança reduziu o tempo do ciclo logístico de cerca de 40 dias por navio para aproximadamente 15 dias por trem. Ou seja, não se trata de uma solução improvisada, mas de uma resposta comercial a uma demanda que não pode esperar pelo ritmo habitual do transporte marítimo.

Os trens China-Europa não formam um único serviço ferroviário que parte de uma cidade chinesa e chega sempre ao mesmo destino europeu. Na verdade, eles integram uma rede de transporte ferroviário de contêineres que Pequim reúne sob a marca China-Europe Railway Express. O governo chinês apresenta essa rede como uma das iniciativas emblemáticas da Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative), com uma marca unificada desde 2016 e conexões entre diversas cidades chinesas e mercados europeus.

A demanda não surge do nada. O programa Copernicus apontou junho de 2026 como o mês mais quente já registrado na Europa Ocidental, enquanto a Organização Meteorológica Mundial relatou recordes de temperatura e episódios extremos em vários países. Na Espanha, no fim de julho, já se falava da quarta onda de calor do verão, com temperaturas que poderiam ultrapassar os 42 °C em algumas regiões. A França oferece outro indicativo desse mercado aquecido: segundo o jornal Le Monde, as vendas de aparelhos de climatização aumentaram 61% em maio. Não se trata apenas de um fenômeno meteorológico, mas de um aumento acelerado no consumo.

Mais vendas em menos tempo

Os dados divulgados por governos locais chineses ajudam a dimensionar o fenômeno. O governo de Wuhan informou que, em junho, seus serviços ferroviários para a Europa e a Ásia Central transportaram 88,24% mais aparelhos de ar-condicionado e componentes do que no mesmo período do ano anterior, com cargas destinadas à Polônia, Alemanha e Itália.

Zhengzhou oferece outro exemplo: um trem com destino a Duisburgo partiu com 55 TEUs (unidades equivalentes a contêineres de 20 pés), dos quais 17 estavam carregados com cerca de 4 mil aparelhos. Já a região da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau informou o envio de mais de 100 mil aparelhos completos por trem entre abril e junho, além de componentes essenciais.

O transporte marítimo continuará sendo a principal opção para movimentar grandes volumes de mercadorias, mas esta história trata de outra questão: chegar antes que a demanda esfrie. Fontes locais chinesas afirmam que o trajeto ferroviário leva entre 15 e 20 dias, contra mais de 40 dias por navio — uma diferença que muda completamente a lógica da reposição de estoques. Se uma loja europeia fica sem aparelhos durante o pico da demanda, recebê-los ainda no meio do verão é muito diferente de recebê-los quando a onda de calor já passou.

De um lado, fabricantes como a Midea conseguem abastecer um mercado em que as compras dispararam e que ainda tem amplo potencial de crescimento. A Reuters, citando a Agência Internacional de Energia (IEA), estima que apenas cerca de 20% das residências europeias tenham ar-condicionado. A própria Midea afirmou à agência que seu modelo PortaSplit esgotou em alguns canais de venda, impulsionado pelo aumento nas vendas e nos embarques para mercados como Alemanha, Espanha e França.

Imagens | Bence Szemerey (Pexels), Midea

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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