A Ucrânia está há quatro anos caçando russos com drones; agora transformou o deserto da África em uma nova frente de guerra

Kiev tenta transformar anos de aprendizado acelerado com drones em uma capacidade militar que pode exportar e utilizar onde quer que cruze o caminho da Rússia

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Bárbara Castro

Redatora

Ao longo de quatro anos de conflito, a Ucrânia transformou os drones em uma de suas ferramentas mais letais para localizar, monitorar e abater tropas russas. Agora, essa bagagem operacional começa a viajar para muito além do Leste Europeu. Uma investigação revelou especialistas ucranianos atuando no Mali, na Líbia e no Sudão, além de destacamentos enviados ao Oriente Médio. Em resumo: a guerra contra as forças russas já não se restringe ao solo ucraniano, e o deserto africano virou um palco estratégico para Kiev desgastar Moscou.

Das trincheiras ao deserto

A mudança de cenário dificilmente poderia ser mais drástica. Cerca de 15 operadores e instrutores ucranianos estão atuando no norte do Mali em apoio à Frente de Libertação de Azawad, composta majoritariamente por rebeldes tuaregues que combatem o exército maliano e mercenários russos, segundo uma apuração da CNN.

Os enviados de Kiev garantem que não participam dos combates na linha de frente: o trabalho deles consiste em treinar os combatentes locais, prestar suporte tático e acompanhar as missões em tempo real pela internet, transmitindo orientações de voo por rádio. É, em essência, o know-how militar acumulado em anos de guerra sendo aplicado a milhares de quilômetros das fronteiras ucranianas.

A África como extensão do front

Para entender o que a Ucrânia faz por lá, é preciso olhar primeiro para a estratégia do Kremlin. A Rússia aproveitou a retirada da França e de outras potências ocidentais da região do Sahel para ampliar sua influência sobre governos militares locais, oferecendo proteção armada em troca de dinheiro, peso diplomático e concessões de recursos naturais.

Por muito tempo, essa engrenagem operou sob a bandeira do Grupo Wagner. Após a morte de Yevgeny Prigozhin em 2023, o governo russo remodelou essa força sob o comando do Africa Corps, agora subordinado ao Estado. No Mali, esse contingente tornou-se a espinha dorsal de sustentação da junta militar. Golpear a presença russa por lá é uma forma de Kiev abrir novas frentes de desgaste sem precisar concentrar esforços apenas no front doméstico.

A maior exportação ucraniana é o conhecimento

O trunfo dessa investida é algo que a Ucrânia acumulou em volume sem precedentes: experiência real de combate na primeira grande guerra dominada por veículos aéreos não tripulados. Uma fonte da inteligência militar ucraniana explicou que o país decidiu transformar esse domínio técnico em uma ferramenta de política externa e projeção global.

Especialistas ucranianos também estariam presentes no Sudão, enquanto militares do Chade, Níger e Burkina Faso já viajaram ao Mali para receber instrução avançada de drones. Além disso, após ataques iranianos contra aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio neste ano, Kiev enviou equipes a pelo menos cinco países para treinar defesas contra os Shahed de fabricação iraniana — ameaça com a qual os próprios ucranianos lidam rotineiramente. Em troca, o governo ucraniano firma acordos de segurança e obtém promessas de novos lotes de munição.

Um ambiente operacional totalmente hostil

Transferir táticas desenvolvidas na Europa para a paisagem do Sahel não é simples. Temperaturas que superam com facilidade os 43 °C, poeira densa, areia fina e escassez de água exigem muito mais de filtros, circuitos eletrônicos, baterias e módulos de resfriamento do que o clima úmido e frio do leste europeu.

A própria dinâmica do combate muda por completo. Em vez de trincheiras fortificadas e barragens de artilharia pesada, no Mali prevalecem as grandes distâncias, emboscadas móveis, interceptação de comboios e grupos pequenos que dependem do conhecimento geográfico. O continente africano se converteu em um novo laboratório de campo para ajustar os equipamentos e as táticas aperfeiçoadas desde 2022.

A controversa aliança com os tuaregues

A aproximação com os combatentes da Frente de Libertação de Azawad traz um dilema diplomático evidente. Militares entrevistados pela CNN reconhecem abismos culturais e ideológicos com as facções locais, mas encaram a cooperação como um alinhamento temporário contra um oponente em comum. O elo ganhou manchetes mundiais em 2024, quando rebeldes emboscaram tropas de Mali e membros do Wagner perto de Tinzaouaten — ação em que um porta-voz da inteligência de Kiev chegou a afirmar que os guerrilheiros receberam "informações essenciais" para o ataque.

Mali, Níger e Burkina Faso reagiram levando uma acusação formal contra a Ucrânia ao Conselho de Segurança da ONU por suposto apoio ao terrorismo, alegação que o governo ucraniano rebateu categoricamente. O Kremlin também aproveita o episódio para acusar Kiev de desestabilizar a região, retórica que a diplomacia ucraniana rejeita.

Líbia: ataques no Mediterrâneo contra a frota russa

A movimentação não para no Sahel. Uma apuração do Le Monde localizou equipes ucranianas operando drones marítimos no noroeste da Líbia desde o fim de 2025. Utilizando uma base internacional em Misrata, as ações miram petroleiros da chamada 'frota fantasma' russa, usada para burlar sanções internacionais e manter o caixa de guerra de Moscou.

A operação acabou expondo pistas quando pescadores encontraram, perto da ilha grega de Lêucade, um drone naval ucraniano carregado de explosivos que havia se desgarrado do comando. De acordo com fontes militares, destacamentos de Kiev também prestam treinamento a grupos locais. Trata-se do mesmo cálculo estratégico: trocar know-how por acesso territorial, atingindo as fontes de receita que sustentam a máquina bélica russa.

Um tabuleiro militar em rápida expansão

Esses destacamentos no exterior ainda são enxutos e não transformam a África em um segundo front da magnitude do Donbas, mas evidenciam uma virada estratégica de peso. Kiev trabalha para transformar quatro anos de aprendizado acelerado em capacidade que pode ser exportada e mobilizada onde houver atrito com interesses de Moscou: seja instruindo rebeldes no Saara, montando escudos contra drones iranianos no Oriente Médio ou lançando ataques marítimos a partir da costa norte-africana.

A grande ironia é que uma tecnologia refinada às pressas para sobreviver a uma invasão em casa agora serve de ferramenta para golpear os interesses geopolíticos de Moscou a milhares de quilômetros de distância.

Para os operadores que antes caçavam veículos blindados russos a partir de porões e trincheiras ucranianas, a paisagem se transformou por completo: na tela de controle dos drones, o que se vê agora é a vastidão do deserto africano.

Matéria traduzida de Xataka*

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