Existe uma tênue linha que liga erupções vulcânicas, queima de petróleo e incineração de resíduos às nossas cozinhas: o mercúrio. Mercúrio produzido por dezenas de atividades (principalmente humanas), que acaba na água, transformado em metilmercúrio por milhões de microrganismos, armazenado em peixes e, finalmente, em nossos estômagos.
Era apenas uma questão de tempo até que se tornasse o enorme escândalo alimentar que é hoje.
O metilmercúrio chegou até às redes sociais
O problema é tão disseminado que não faltam especialistas e influenciadores defendendo mensagens como escolher latas de "atum" em vez de latas de "atum light". A mensagem é encenada ao som de instituições como a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), que recomenda evitar peixes grandes; a letra esconde muitos problemas.
Em última análise, a mensagem viral mistura intuições corretas com evidências científicas altamente questionáveis (usa, para começar, classificações comerciais que não têm equivalente direto em espanhol). Não é a primeira vez que uma boa ideia acaba nos causando dores de cabeça.
E por que isso é um problema?
Porque, quer queiramos ou não, o peixe é um alimento básico em muitas dietas. Não só pelo seu teor de proteína, mas também como fonte primária de certas gorduras muito difíceis de substituir de outra forma (por exemplo, ômega-3). A questão é que, juntamente com tudo isso, vem o metilmercúrio.
E a exposição ao metilmercúrio é um assunto sério: pode prejudicar o desenvolvimento cerebral e ser tóxica para o sistema nervoso. De fato, pode causar sintomas como tremores, perda de memória e disfunção cognitiva. Os grupos mais vulneráveis são mulheres grávidas, mães que amamentam, bebês e crianças pequenas.
Todos os peixes têm a mesma quantidade de mercúrio?
Não, não têm. De acordo com a Agência Espanhola de Segurança Alimentar e Nutricional, existem quatro espécies verdadeiramente perigosas: peixe-espada, atum-rabilho (Thunnus thynnus), tubarões (incluindo cações, tubarões-mako, cações-espinhosos, tubarões-gato-pintados e tubarões-azuis) e lúcio.
Essas espécies são de fato problemáticas para mulheres grávidas ou que planejam engravidar, mães que amamentam e crianças menores de 10 anos. Aliás, a AESAN recomenda expressamente evitar o consumo delas. As demais espécies não são problemáticas em termos de mercúrio: são seguras e saudáveis. E a AESAN recomenda de três a quatro porções por semana, mesmo para populações de risco.
Não existem outras diferenças com base nos níveis?
Em outras palavras, existem apenas espécies perigosas e não perigosas? Não, não. É verdade que cada espécie contém uma quantidade diferente de mercúrio. Aliás, cada indivíduo apresenta níveis diferentes. É aí que surge a confusão: precisamos de "regras" simples para nos ajudar a lidar com essa incerteza.
Do ponto de vista prático, com base nos estudos disponíveis, apenas as seguintes espécies podem ser consideradas de baixo teor de mercúrio: Polaca, Anchova, Arenque, Bacalhau, Pescada-branca, Berbigão, Cavala, Lula, Camarão, Caranguejo, Búzio, Escamudo, Carpa, Lula, Amêijoa, Choco, Lula, Lagostim, Amêijoa-de-cunha, Dourada, Espadilha, Camarão, Carapau, Lagosta, Camarão-rei, Linguado-europeu, Linguado-limão, Robalo-europeu, Mexilhão, Pescada-branca, Merluza, Navalha, Ostra, Pampo, Solha, Lula, Polvo, Camarão, Salmão-do-Atlântico, Salmão-do-Pacífico, Sardinha, Sardinha-pequena, Sardinha-comum, Solha e Truta.
Todas as outras espécies apresentam níveis intermediários, sendo praticamente impossível distingui-las.
Então, atum ou atum light?
A resposta mais sensata é que não faz diferença. Se confiarmos nesse tipo de recomendação, criaremos uma falsa sensação de segurança que não se justifica.
Em geral, qualquer atenção que dediquemos à alimentação é positiva. O sistema está estruturado de tal forma que, se nos descuidarmos, nossa dieta piora. No entanto, sabemos que a obsessão com a alimentação também traz muitos problemas. Usar heurísticas que complicam nossas compras sem trazer melhorias substanciais não é uma ideia tão boa quanto parece.
Imagem de capa | Tobias Tullius
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