O Japão precisa de trabalhadores, mas está expulsando brasileiros: entenda a 'armadilha' financeira que transforma dívidas em deportação

Mesmo com falta de mão de obra, país endurece regras e usa inadimplência para barrar imigrantes

Imigrantes Japão. Créditos: ShutterStock
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora

Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

470 publicaciones de Laura Vieira

Viver fora do país de origem nunca foi simples. Afinal, você não “faz parte” daquele local, e qualquer erro pode ter consequências catastróficas. No Japão, essa margem para erro vem ficando cada vez menor. Mesmo sofrendo com a escassez de mão de obra e mantendo milhões de estrangeiros em seu território, o país tem adotado regras mais rígidas que podem transformar atrasos financeiros relativamente pequenos em ordens de saída ou até deportação

Impostos, contribuições obrigatórias e dívidas com o sistema público de saúde passaram a comprometer diretamente a renovação de vistos, afetando especialmente comunidades estrangeiras de grande volume, como a brasileira. O resultado é um cenário paradoxal: enquanto o Japão precisa de trabalhadores, muitos imigrantes vivem sob o risco de terem sua permanência interrompida por questões burocráticas e financeiras.

Impostos e contribuições passaram a definir quem pode ficar no Japão

Atrasos em impostos ou contribuições obrigatórias no Japão eram tratados como problemas administrativos, passíveis de negociação, parcelamento ou regularização gradual. No entanto, essa realidade mudou. Hoje, dívidas com o governo japonês se tornaram um fator decisivo na análise de vistos, atingindo diretamente estrangeiros que vivem legalmente no país.

Mas o que tem contribuído para esse cenário? Todos os estrangeiros com permanência superior a três meses são obrigados a contribuir para sistemas como o Seguro Nacional de Saúde e a Previdência Nacional. Esses pagamentos garantem acesso à assistência médica e a benefícios sociais, mas também funcionam como um termômetro de “boa conduta administrativa” perante as autoridades migratórias.

Dados do próprio governo japonês mostram que, entre abril e dezembro de 2024, estrangeiros pagaram apenas 63% das contribuições necessárias ao seguro de saúde, enquanto japoneses alcançaram uma taxa de 93%. Na Previdência Nacional, a diferença é ainda maior: a taxa de pagamento de estrangeiros no ano fiscal de 2024 ficou em 49,7%, contra 84,5% da média geral.

Essa desordem passou a ser usada como justificativa para endurecer as regras. Hoje, a inadimplência de pagamento pode resultar na negativa de renovação do visto, independentemente do histórico profissional ou do tempo de residência. Em muitos casos, o estrangeiro recebe uma ordem de saída, um procedimento administrativo que exige deixar o país voluntariamente em um prazo curto, geralmente de até um mês. Em situações mais graves, a consequência pode ser a deportação, com possibilidade de detenção e impedimento de retorno ao Japão.

Outro ponto crítico é o custo dessa saída forçada. Isso porque, na maioria das vezes, o próprio imigrante precisa arcar com as despesas da viagem de volta ao país de origem. O governo japonês só cobre esses custos em situações consideradas excepcionais, levando em conta critérios humanitários e a capacidade financeira da pessoa afetada.

Mudanças na política migratória indicam regras mais rígidas para estrangeiros no Japão

O avanço desse modelo coincide com um ambiente político menos tolerante à imigração irregular. Ainda em 2025, o governo japonês anunciou medidas para reduzir a inadimplência entre estrangeiros, incluindo o bloqueio automático da renovação de vistos em caso de dívidas com taxas e impostos públicos. Com a chegada da primeira-ministra Sanae Takaichi ao poder, anunciou medidas específicas para combater a inadimplência entre estrangeiros, com tolerância zero para irregularidades administrativas e estímulo à saída voluntária.

Um dos focos centrais é o controle de dívidas médicas. Com o aumento do turismo internacional, hospitais japoneses passaram a registrar valores crescentes de atendimentos não pagos por estrangeiros. O montante saltou de 885 milhões de ienes em 2021 para 1,33 bilhão em 2023. Embora represente apenas 1,5% do total de dívidas hospitalares, o dado foi suficiente para justificar novos mecanismos de bloqueio migratório.

Entre as propostas em análise está a redução do limite de débito permitido para reentrada no país: de 200 mil ienes para apenas 10 mil ienes. Na prática, isso cria um sistema de exclusão preventiva, no qual pequenas pendências financeiras podem impedir novos vistos ou retornos futuros.

O endurecimento vai além das finanças. Revisões recentes da legislação migratória aceleraram deportações, limitaram pedidos sucessivos de asilo e ampliaram o poder do Estado para remover estrangeiros com condenações criminais mais longas. Paralelamente, o governo quer elevar os requisitos para residência permanente e cidadania, exigindo maior renda, proficiência em japonês e períodos mais longos de residência contínua.

O discurso oficial do governo insiste que não se trata de xenofobia, mas de governança. Mesmo assim, o efeito prático é claro: o Japão está substituindo políticas de integração por sistemas de triagem baseados em dados, automatizando decisões que impactam diretamente a vida de milhões de estrangeiros. 


Inicio