Em meio às negociações de paz que os Estados Unidos tentaram conduzir entre a Rússia e a Ucrânia, o presidente da Finlândia fez um alerta ao velho continente: se a paz ocorrer na Europa Oriental, será o fim da guerra, mas também, possivelmente, o início de outra. Agora, a inteligência de Washington parece estar alinhada.
A Reuters noticiou que os relatórios de inteligência dos EUA vêm transmitindo uma mensagem preocupante há mais de dois anos: os objetivos de Putin na Ucrânia não se moderaram nem diminuíram, apesar do desgaste militar, das sanções econômicas e das negociações diplomáticas em curso.
Desde o início da invasão em grande escala em 2022, a avaliação das agências americanas é de que o Kremlin aspira a subjugar toda a Ucrânia e, além disso, a restaurar uma esfera de influência sobre territórios que faziam parte do antigo bloco soviético, incluindo países que agora integram a OTAN. Essa leitura não é pontual nem circunstancial, mas sim uma linha de análise sustentada ao longo do tempo que coincide amplamente com as conclusões dos serviços de inteligência europeus e com a percepção estratégica de países particularmente vulneráveis, como a Polônia e os Estados Bálticos, considerados os próximos alvos potenciais caso Moscou consiga consolidar sua posição na Ucrânia.
Entre a inteligência e o discurso
Este diagnóstico entra em conflito direto com a narrativa promovida por Trump e sua equipe de negociação, que argumentam que Putin quer pôr fim ao conflito e que um acordo de paz estaria mais próximo do que nunca. Para os analistas de inteligência, essa visão ignora tanto as declarações públicas do próprio líder russo quanto a lógica de suas ações militares e políticas. Washington enfatiza que Putin negou repetidamente ser uma ameaça à Europa, mas os fatos (a anexação de territórios, a pressão militar constante e a recusa em renunciar às reivindicações maximalistas) contradizem esse discurso.
Até mesmo vozes dentro do Congresso dos EUA, como a do deputado democrata Mike Quigley, membro do Comitê de Inteligência da Câmara, insistiram que a convicção de que a Rússia "quer mais" é compartilhada por aliados importantes na Europa e se baseia em informações sólidas, não em suposições.
Controle territorial
A Rússia controla cerca de 20% do território ucraniano. Esse domínio inclui quase todas as províncias de Luhansk e Donetsk, o coração industrial do Donbas, grandes áreas de Zaporíjia e Kherson, e a península da Crimeia, um enclave estratégico no Mar Negro.
Putin não apresenta essas conquistas como provisórias ou negociáveis: ele declarou formalmente que a Crimeia e as quatro províncias ocupadas pertencem à Rússia, uma reivindicação que estabelece uma linha vermelha clara para quaisquer negociações. Essa posição torna o debate territorial o principal obstáculo aos contatos diplomáticos, uma vez que aceitar essas exigências significaria, de fato, legitimar uma guerra de anexação e criar um precedente perigoso para a ordem europeia pós-Guerra Fria.
Nesse contexto, a pressão de Washington sobre Kiev tem aumentado. Segundo fontes familiarizadas com as negociações, a proposta dos EUA incluiria a retirada das forças ucranianas das áreas de Donetsk que ainda controla, como parte de um acordo de paz. Para Volodymir Zelenskiy e para a maioria da sociedade ucraniana, tal concessão é inaceitável.
Não só implicaria ceder território soberano sob coação militar, como também colocaria em causa a viabilidade futura do Estado ucraniano e a sua capacidade de se defender contra novas agressões. Kiev insiste que qualquer acordo que não inclua garantias de segurança reais e credíveis equivaleria a congelar o conflito em termos favoráveis a Moscou, deixando aberta a porta para a retoma da guerra quando a Rússia se sentir mais forte.
Segurança: o grande debate
As negociações lideradas pelo círculo próximo de Trump, com figuras como Jared Kushner e Steve Witkoff, avançaram na definição de um pacote de garantias de segurança apoiado pelos Estados Unidos e aceito pela Ucrânia e por vários países europeus. Essas garantias incluiriam o destacamento de uma força de segurança predominantemente europeia em países vizinhos e em áreas da Ucrânia distantes da linha de frente, com o objetivo de dissuadir e responder a futuras agressões russas.
O plano também incluiria um limite para o tamanho do exército ucraniano, fixado em cerca de 800 mil soldados, embora Moscou esteja pressionando para reduzi-los ainda mais, uma exigência à qual alguns negociadores americanos estão dispostos. A isso se somariam o apoio de inteligência dos Estados Unidos, patrulhas aéreas apoiadas por Washington e a ratificação do acordo pelo Senado americano, o que, em teoria, daria maior solidez política ao compromisso.
Apesar desses avanços, Zelensky expressou publicamente dúvidas sobre a real eficácia dessas garantias, questionando o que impediria a Rússia de atacar novamente na prática. A incerteza é agravada pela repetida rejeição de Putin à presença de tropas estrangeiras na Ucrânia, inclusive como parte de um acordo de paz.
Ao mesmo tempo, o líder russo não demonstrou qualquer sinal de flexibilidade: embora se declare disposto a conversar sobre a paz, insiste que suas condições devem ser atendidas e se vangloria dos avanços territoriais realizados por suas forças, que ele estima em cerca de 6 mil quilômetros quadrados no último ano. A falta de uma resposta clara de Washington a essas demandas alimenta a percepção de que Moscou poderia estar usando as negociações como uma ferramenta tática para ganhar tempo e consolidar posições.
Risco estratégico
O Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional esclareceu que a Rússia, em seu estado atual, não possui capacidade militar para conquistar toda a Ucrânia ou lançar uma ofensiva em larga escala contra a Europa. No entanto, os próprios relatórios enfatizam que a falta de capacidade imediata não equivale a uma resignação estratégica. A intenção política de Putin, segundo a inteligência americana, permanece expansiva, e seus cálculos parecem estar voltados para uma guerra prolongada, na qual o desgaste da Ucrânia e a fadiga política do Ocidente jogam a seu favor.
Essa combinação de ambição intacta e paciência estratégica explica a cautela (ou ceticismo) dos serviços de inteligência em relação a qualquer acordo que não limite efetivamente o poderio militar russo e não garanta a segurança da Ucrânia a longo prazo.
Em resumo, o que esses relatórios revelam é que a guerra não se limita ao controle de províncias específicas, mas faz parte de um confronto mais amplo sobre a ordem de segurança europeia. Para Moscou, a Ucrânia é tanto um alvo territorial quanto um símbolo: sua subjugação reforçaria a ideia de que fronteiras podem ser redesenhadas pela força e que as garantias ocidentais têm limites.
Para os Estados Unidos e seus aliados, aceitar um acordo que deixe intactas as ambições de Putin significaria assumir um risco estratégico que vai muito além de Kiev. Talvez seja por isso que, apesar do ruído diplomático e das mensagens otimistas, a inteligência americana insiste em um alerta claro: enquanto os objetivos do Kremlin não mudarem, a paz, se vier, será frágil e temporária.
Imagem | Ministério da Defesa da Ucrânia
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