Enquanto a IA encarece a memória RAM, na China ocorre o contrário: está muito mais barato

Empresas locais aproveitam o gargalo para expandirem seus negócios

RAM na China / imagem: Xataka
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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O mercado global de memória vive um de seus momentos mais tensos em décadas. Os preços da RAM dispararam de forma inédita, com módulos DDR5 que ultrapassam os 900 dólares (R$ 4.735) em alguns mercados, um golpe direto para fabricantes de dispositivos de consumo como notebooks, smartphones e consoles. A principal causa está no auge da inteligência artificial, que absorveu grande parte do fornecimento mundial de chips de memória, obrigando os grandes produtores a priorizar os centros de dados em detrimento dos consumidores finais.

Em meio a esse caos, os fabricantes chineses de memória estão encontrando uma oportunidade única. Segundo o South China Morning Post, empresas como a ChangXin Memory Technologies (CXMT) e a Yangtze Memory Technologies Corp (YMTC) estão acelerando seu crescimento e ganhando espaço em um mercado historicamente dominado por Samsung, SK Hynix e Micron.

O impacto do auge da IA na memória RAM

A rápida expansão das infraestruturas de inteligência artificial por parte de gigantes como OpenAI, Google e Microsoft transformou o mercado de chips. As fabricantes tradicionais redirecionaram suas linhas de produção para memórias de alta largura de banda (HBM) e DRAM avançada, essenciais para treinar modelos de IA, deixando em segundo plano os módulos mais comuns usados em dispositivos pessoais.

O resultado foi um aumento exponencial nos preços e uma queda nas perspectivas de vendas de eletrônicos de consumo. A IDC e a Counterpoint preveem que os envios globais de smartphones se reduzam em pelo menos 2% neste ano, enquanto o mercado de PCs pode cair cerca de 5%. Os consoles também serão afetados, com uma diminuição estimada de 4,4%.

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Coreia do Sul e EUA dominam, mas a China avança

A Samsung e a SK Hynix, junto com a Micron, controlam mais de 90% do mercado global de DRAM. Sua liderança se baseia em décadas de experiência, produção em massa e vínculos estreitos com clientes internacionais. No entanto, o frenesi de investimentos em IA elevou tanto o valor dos componentes que, pela primeira vez, a capitalização combinada da Samsung e da SK Hynix superou a da Alibaba e da Tencent, dois dos gigantes tecnológicos chineses, segundo a Bloomberg.

Enquanto a Coreia do Sul se consolida como fornecedora-chave da Nvidia e de outros líderes globais, a China optou por um caminho diferente: a autossuficiência tecnológica. As restrições de exportação dos EUA limitaram o acesso a chips avançados, o que impulsionou a CXMT e a YMTC a acelerar seu desenvolvimento interno e buscar uma maior participação no mercado mundial.

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A CXMT, fundada há pouco mais de uma década, conseguiu se tornar lucrativa em 2025 e já detém cerca de 5% do mercado global de DRAM. Embora, de acordo com a Academia Nacional de Engenharia da Coreia, a empresa ainda esteja várias gerações atrás dos fabricantes sul-coreanos, conseguiu avançar rapidamente ao anunciar a produção em massa de memórias DDR5 e LPDDR5X. A YMTC, por sua vez, tem se destacado no segmento de NAND, com tecnologias de ligação híbrida consideradas mais avançadas do que as de suas rivais coreanas.

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Ambas as empresas se beneficiam do forte apoio do governo chinês, que, por meio do “Big Fund” e de outros mecanismos, destinou mais de 95 bilhões de dólares em subsídios para impulsionar a indústria de semicondutores. Esse suporte permitiu que as companhias locais reduzissem a defasagem tecnológica e se posicionassem como alternativas viáveis em um mercado dominado por poucos jogadores.

No início de 2026, a CXMT começou a oferecer módulos de 32 GB DDR4-3200 ECC por cerca de 138 dólares (R$ 726), em contraste com os preços internacionais, que variam entre 300 e 400 dólares (R$ 1.500 a R$ 2.100). Embora essas opções de baixo custo estejam voltadas principalmente para o mercado interno chinês e ainda não tenham ampla disponibilidade global, a estratégia representa uma pressão direta sobre o setor e pode abrir caminho para uma maior participação no mercado de memória em um futuro próximo.

Um futuro marcado pela concorrência 

Embora os fabricantes chineses ainda enfrentem desafios importantes, a crise da RAM demonstra que, mesmo no caos, existem oportunidades. A combinação de preços exorbitantes, demanda insaciável por IA e políticas de autossuficiência tecnológica criou o cenário perfeito para que a CXMT e a YMTC reivindiquem uma fatia maior do mercado.

A única certeza é que o panorama global da memória está mudando. Enquanto os gigantes sul-coreanos e estadunidenses lutam para acompanhar o ritmo da demanda por IA, a China avança a passos firmes, buscando transformar uma crise em um momento de crescimento histórico, como já fez antes.

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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