A China afirma ter construído seu maior centro de dados; e confirma que seu problema reside justamente nos chips

A China se vangloria de seu maior centro de dados, que utiliza chips de fabricação própria; o problema é que, em retrospectiva, ele equivale ao que a OpenAI usou para treinar o GPT-4 quatro anos atrás

Imagem de capa | Huawei
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Fabrício Mainenti

Redator

A China acaba de lançar sua mais recente maravilha tecnológica em Shenzhen: um cluster de IA com 14.000 petaflops, construído inteiramente com chips Huawei Ascend 910C.

A cidade o apresentou como o primeiro centro de computação em larga escala com 10 mil chips, utilizando tecnologia totalmente nacional. É um marco inegável, mas, se o colocarmos em contexto, também é um sinal de alerta e uma dose de realidade.

Por que isso importa

O cluster de Shenzhen, com toda a sua retórica de soberania tecnológica, representa aproximadamente 1% da capacidade do maior data center dos EUA atualmente em operação.

Em outras palavras, a China construiu, por meio de um esforço institucional significativo, o que a OpenAI já tinha disponível para treinar o GPT-4 em 2022. A diferença não é uma questão de ambição (a China tem isso), nem de capital (que também tem), nem de energia (que, obviamente, também tem). É uma questão de chips: o que eles são capazes de fabricar e em que volume hoje.

Entrelinhas

O comunicado de imprensa do governo de Shenzhen destaca métricas de eficiência energética e taxas de ocupação de 92%. São números realmente impressionantes. Mas a seleção de indicadores (seleção tendenciosa) revela muito sobre o que foi omitido: não há comparações diretas com os clusters NVIDIA H100 que dominam os data centers da Microsoft, Google ou Amazon.

Publicar apenas o que se tem também é uma forma de não publicar o que falta.

Contexto

Neste momento, ninguém duvida que a China não tenha escassez de eletricidade, engenheiros ou dinheiro para construir infraestrutura de IA em larga escala. O que ainda lhe falta, apesar do progresso, são os chips.

As restrições à exportação impostas por Trump cortaram seu acesso a semicondutores avançados da NVIDIA e da TSMC, forçando a China a acelerar seu próprio ecossistema.

  • A Huawei respondeu com o Ascend 910C, um chip competente, mas que ainda sofre com limitações de desempenho e, sobretudo, limitações de volume de produção.
  • Se não houvesse escassez de wafers, este data center seria cem vezes maior.

Sim, mas...

Será que a China conseguirá reduzir esse atraso de quatro anos antes que ele aumente ainda mais? A resposta depende quase que exclusivamente do quanto o país conseguirá expandir sua indústria nacional de semicondutores e se as sanções ocidentais conseguirão ou não sufocar esse processo.

Por ora, em Shenzhen, celebra-se uma conquista tão inegável quanto o fato de que, aos olhos do Vale do Silício, ainda estamos em 2022.

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