As ações de gigantes dos semicondutores como Qualcomm e ARM despencaram mais de 8% há algumas semanas (e continuam caindo diariamente), um movimento que reflete o que a indústria vem alertando há algum tempo: o mercado de celulares atingiu um teto, e não por falta de compradores, mas pela incapacidade de fabricar dispositivos suficientes. As previsões apontam para uma queda significativa nas receitas em 2026.
A apresentação de resultados foi um verdadeiro choque de realidade, expondo que a febre pela IA está canibalizando os recursos necessários para nossos smartphones. Não se trata de uma crise de demanda, mas de um problema de oferta que ameaça reconfigurar os preços e a disponibilidade. Enquanto os grandes centros de dados monopolizam a produção de memórias, o setor de celulares fica sem peças para manter seu ritmo: esta é a crise das memórias.
O CEO da Qualcomm foi contundente ao vincular o futuro imediato a um único componente: a memória. Amon declarou que a escassez de chips de armazenamento e de RAM determinará o limite do mercado de smartphones neste ano. A situação é tal que fabricantes chineses já comunicaram à empresa estadunidense que seus volumes de produção serão menores do que o planejado originalmente: eles não conseguem obter memória suficiente para montar os dispositivos.
A IA devora o setor móvel
A raiz do problema é uma questão de prioridades e de capacidade finita. Os três grandes fabricantes de memória estão direcionando sua capacidade para as memórias HBM essenciais para servidores de IA. A Samsung já havia alertado que enfrentamos uma das situações mais duras da história, e a consequência imediata é um gargalo que fez os preços da DRAM móvel dispararem em poucos meses.
Um mercado menor... e mais caro. As projeções de consultorias como a IDC antecipam uma queda histórica de 12,9% nos envios mundiais de smartphones neste ano, atingindo o volume mais baixo em mais de uma década. No entanto, há um dado ainda mais preocupante para o usuário: espera-se que o preço médio de venda aumente 14%. O segmento abaixo de R$ 600 também poderá enfrentar dificuldades — talvez até se tornar inviável.
Desigualdade entre categorias
A crise, porém, não atingirá todos da mesma forma. Enquanto na categoria premium é esperado um aumento de preços entre 7% e 10%, os segmentos de entrada e intermediário enfrentarão uma alta de até 30%. Isso já está provocando vítimas: a Nothing decidiu não lançar um modelo topo de linha neste ano para não comprometer o produto e marcas como a Asus optaram por abandonar o mercado de smartphones. Fala-se que, para as demais, a única saída em certas categorias será a “reduflação” técnica, trazendo de volta configurações com menos memória que pensávamos já ter deixado para trás.
Consciente de que o mercado de telefones amadureceu e agora enfrenta limitações, a Qualcomm está acelerando sua diversificação. A empresa prevê que o setor de robótica começará a crescer nos próximos dois anos e, por isso, apostará na IA “física” como seu vetor de crescimento. É um movimento para depender menos de um mercado que agora está à mercê de um componente que ela não fabrica: a memória.
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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