CEO do Goldman Sachs acredita que as gerações mais jovens não estão se esforçando o suficiente, maso problema é bem diferente

O problema é que a Geração Z não vive mais no mesmo mundo que o CEO conheceu

Imagem | Unsplash (Marília Castelli), Flickr (Fórum Econômico Mundial)
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PH Mota

Redator
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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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David Solomon é um dos executivos mais influentes de Wall Street. Ninguém lhe deu seu cargo de bandeja, como o próprio Solomon relatou em seu discurso de formatura para os alunos da Wharton School of Business da Universidade da Pensilvânia.

O executivo do Goldman Sachs afirma ter conquistado sua posição com muito trabalho, lavando pratos no McDonald's e servindo sorvete em uma sorveteria local enquanto ainda era estudante. Sua história é de esforço recompensado, de um jovem que aprendeu a aproveitar ao máximo cada hora do dia e soube como usar isso a seu favor no ambiente de trabalho. O problema é que, quando essa mensagem é compartilhada com a Geração Z hoje, algo não se encaixa: o mundo em que Solomon construiu sua carreira e o mundo em que a Geração Z precisa viver são cada vez mais diferentes.

Uma lição de gestão do tempo

Em um discurso para uma plateia de recém-formados em maio passado, Solomon explicou que, na adolescência, praticava três esportes, participava do grêmio estudantil e ainda encontrava tempo para trabalhar servindo sorvete em uma sorveteria local. Talvez na esperança de obter alguma ajuda financeira, Solomon contou ao pai que, apesar de sua dedicação, nunca tinha dinheiro suficiente para cobrir suas despesas. Em vez de um empréstimo, o executivo milionário recebeu um conselho do pai: "Anote tudo o que você fizer todos os dias em um calendário."

Ao fazer isso, ele percebeu que estava perdendo uma quantidade significativa de tempo.

Três semanas depois, com uma rotina mais organizada, ele já havia encontrado um segundo emprego fazendo hambúrgueres no McDonald's. Solomon fez dessa lição o tema central de seu discurso em Wharton, onde falou sobre aceitar críticas e aproveitar as oportunidades disponíveis. "Ao longo dos meus 42 anos de carreira, descobri que existem certos valores fundamentais que transcendem as mudanças tecnológicas e culturais", afirmou o executivo do Goldman Sachs.

Esforço, sim, mas onde estão as oportunidades?

O que Solomon não mencionou em seu discurso é que a escada que ele subiu em sua juventude hoje tem muito mais candidatos e muito menos degraus. De acordo com um relatório recente da plataforma de recrutamento Greenhouse, o número médio de candidaturas por oferta cresceu 111% entre 2022 e 2025, de 116 para 244 candidaturas por vaga. Em outras palavras, para cada oportunidade de emprego há o dobro de candidatos.

A escritora, podcaster e professora da Universidade de Nova York, Suzy Welch, disse ao podcast 'Masters of Scale', apresentado por Jeff Berman, que trabalhadores mais jovens enfrentam as mesmas horas intensas e exigências de trabalho difíceis que gerações anteriores, mas não têm a garantia de que o esforço e o trabalho árduo serão recompensados com progresso em suas carreiras. "Acreditávamos que, se você trabalhasse duro, seria recompensado. E aí está a desconexão", disse o especialista em motivação para o trabalho.

O problema não é que os jovens não queiram trabalhar

De acordo com o relatório 'Turning the Tide on Economic Inactivity' elaborado pela consultoria PwC, 42% dos jovens de 18 a 24 anos que deixaram o mercado de trabalho o fizeram devido a problemas de saúde mental, e a análise 'Keep Britain Working' do governo britânico revela que jovens no Reino Unido têm quase cinco vezes mais chances de ficar desempregados.

De acordo com um relatório de 2025 da consultoria Gallup, jovens com menos de 35 anos agora estão menos engajados do que os mais velhos, algo que não acontecia desde 2007. Além disso, 78% dos adultos com menos de 30 anos temem que a inteligência artificial destrua oportunidades de emprego, em comparação com 45% dos maiores de 65 anos que temem pelo emprego.

Sistema que nem sempre recompensa o esforço

Uma pesquisa do Pew Research Center em 36 países revela que 57% dos entrevistados acreditam que as crianças de hoje crescerão em condições piores do que as de seus pais.

Uma pesquisa realizada pelo The Conversation capta os sentimentos dos jovens da geração à qual Solomon se referia, revelando declarações que destacam a atual situação do mercado de trabalho: "Tínhamos uma ideia de como seria nossa vida (...), que agora está completamente errada. Apesar de fazermos um enorme esforço para obter uma educação, a promessa de emprego e estabilidade financeira não está sendo cumprida." Os que já possuem experiência profissional são os mais céticos: "A hierarquia social desmoronou", concluem.

Imagem | Unsplash (Marília Castelli), Flickr (Fórum Econômico Mundial)

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