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Timothée Chalamet colocou em risco seu Oscar da maneira mais tola possível: dizendo que ópera e balé não importam para ninguém.

O ator jovem mais promissor do momento declara publicamente seu desprezo pelo balé e pela ópera. Isso pode lhe custar caro.

Timothée Chalamet colocou em risco seu Oscar da maneira mais tola possível: dizendo que ópera e balé não importam para ninguém.
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Fabrício Mainenti

Redator

Uma conversa sobre o futuro do cinema nas salas de exibição desencadeou, quase acidentalmente, uma das controvérsias culturais mais inesperadas da reta final da temporada de premiações. Timothée Chalamet teve a infeliz ideia de usar ópera e balé como símbolos de irrelevância cultural, e as instituições da indústria reagiram, ao mesmo tempo em que começaram a questionar as chances de Chalamet ganhar um Oscar que muitos consideravam garantido.

"Eu não queria dançar"

Chalamet não estava tentando falar sobre ópera. A conversa, realizada em 4 de março com seu colega de elenco de "Interestelar", Matthew McConaughey, girou em torno de algo mais amplo: se o cinema nas salas de exibição tem futuro e se os atores deveriam implorar para que o público assistisse a seus filmes. Chalamet argumentou que bons filmes (citando o fenômeno 'Barbenheimer' como exemplo) não precisam de ninguém para promovê-los.

Para ilustrar sua alternativa, ele recorreu a uma imagem um tanto distorcida: 

"Não quero trabalhar com balé ou ópera, o que é como dizer: 'ei, vamos manter isso vivo, mesmo que ninguém se importe mais'". (...) Com todo o respeito às pessoas do balé e da ópera".

Tarde demais.

Algumas reações

Instituições de ópera e balé foram as primeiras a se manifestar: o Royal Ballet and Opera de Londres publicou um vídeo no Instagram na sexta-feira com artistas e técnicos no palco do teatro. Na legenda, convidaram o ator a reconsiderar sua posição, sem qualquer conflito.

A English National Opera foi um pouco mais incisiva: publicou uma foto de Chalamet ao lado de sua citação viral e ofereceu a ele ingressos gratuitos com o código "Timothée" para que ele pudesse "se apaixonar por ópera novamente". A Seattle Opera seguiu o exemplo: um desconto de 14% em sua produção de "Carmen" usando o mesmo código.

Em uma entrevista posterior, o Royal Ballet and Opera deixou claro: o balé e a ópera influenciaram o teatro, o cinema, a moda e a música contemporânea por séculos, e milhões de pessoas em todo o mundo continuam a assistir a apresentações. Em outras palavras, não se trata de uma indústria em declínio. 

Além disso, foi mencionado como a companhia distribui suas produções em mais de 1.500 cinemas em 50 países, e seu próprio diretor-executivo destacou, na apresentação daquela temporada, que três quartos da atividade da instituição acontecem fora da Royal Opera House.

Os artistas estão mordendo a isca

Menos diplomáticas foram figuras como a cantora de ópera colombiana Isabel Leonard, que publicou nas redes sociais que "apenas uma pessoa ou artista fraco sente a necessidade de menosprezar as artes que inspiram justamente aqueles que buscam experiências mais lentas e contemplativas".

O bailarino colombiano Fernando Montaño publicou uma carta formal no Instagram: comparar formas de arte, escreveu ele, limita o crescimento e bloqueia a capacidade de desenvolver o próprio talento. A bailarina Anna Yliaho, radicada em Londres, foi mais concisa: apenas um artista inseguro, disse ela, destrói outra disciplina para exaltar a sua própria.

O barítono irlandês Seán Tester comentou que confundir popularidade com valor é um erro fundamental. Da Espanha, a maestrina Alondra de la Parra, da Fundação Orquestra e Coro da Comunidade de Madri, estendeu o convite de diversas outras instituições a Chalamet para que ele as visitasse e mudasse de ideia. Muitas dessas declarações foram incluídas no artigo mencionado anteriormente no The Hollywood Reporter.

O pior momento possível

As declarações chegam no pior momento possível para a campanha de Chalamet ao Oscar de Melhor Ator por 'Marty Supreme', uma das nove indicações do filme, incluindo a principal. Chalamet certamente teve uma carreira notável em premiações, já que, com apenas trinta anos, tornou-se o ator mais jovem a acumular três indicações a Melhor Ator desde Marlon Brando.

Durante meses, aliás, foi o favorito, vencendo tanto no Critics' Choice Awards quanto no Globo de Ouro.

Mas a turbulência dos meses que antecederam a premiação parece ter afetado o filme: primeiro, um artigo sobre o comportamento do diretor Josh Safdie em um set de filmagem anterior. Depois, a derrota no BAFTA (sem levar nenhum prêmio e com 11 indicações, um número recorde de indicações), seguida pela derrota no SAG Awards, onde Michael B. Jordan ganhou por 'Pecadores' (tornando-se o novo favorito ao Oscar).

E agora, essas declarações, em consonância com o estilo agressivo de promoção de Chalamet, mas que podem alienar os votantes mais tradicionais.

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