Existe vida extraterrestre? Sim ou não? Muitas vezes, pensamos que a ciência evolui a partir de afirmações rigorosas e sólidas. Temos a percepção de que existe um acordo absoluto entre todos os cientistas do mundo. “É o que diz a ciência”. Assim, como se todos os cientistas tivessem uma mente coletiva. Mas o conhecimento científico, na verdade, evolui por meio da incerteza e de consensos que podem mudar à medida que novas pesquisas são realizadas.
Isso é o que estuda uma equipe de cientistas da Universidade de Durham com o projeto C-SCOPE (Centro para Pesquisa e Avaliação da Opinião da Comunidade Científica). O objetivo é justamente compreender quanto consenso existe em algumas das disciplinas mais importantes da ciência. A astrofísica costuma ser uma das áreas que mais geram dúvidas entre seus próprios pesquisadores, como visto em um estudo publicado recentemente. Por isso, eles decidiram ir além e analisar a opinião de centenas de astrobiólogos sobre a possibilidade de existir vida extraterrestre.
Essas pesquisas foram realizadas em 2025, após a publicação de dois estudos importantes que apontam uma possível descoberta de vida extraterrestre. O primeiro desses estudos foi realizado com dados do exoplaneta K2-18b, no qual foram encontrados traços de dimetilsulfeto e dimetildissulfeto, substâncias que, na Terra, estão associadas à atividade biológica.
O segundo, por outro lado, foi realizado em Marte. Em uma rocha do planeta vermelho chamada Cheyava Falls, foram identificadas estruturas conhecidas como manchas de leopardo, que, em nosso planeta, estão associadas à atividade microbiana. Ao perguntar a centenas de astrobiólogos sobre cada um desses estudos, a opinião ficou bastante dividida. Ainda assim, parecia haver menos dúvidas no segundo caso.
Sobre a possibilidade de vida extraterrestre em K2-18b, 6,6% dos entrevistados concordaram com essa hipótese, enquanto 65,4% se mostraram em desacordo e 28% ficaram neutros. Em relação à rocha marciana, 15,1% dos astrobiólogos demonstraram concordância, 44,6% discordância e 40,3% neutralidade. Entre os que discordaram, também foi perguntado se a discordância era absoluta ou com algumas ressalvas. No primeiro caso, houve 35,1% de discordância total, mas no segundo, apenas 11,1%.
Possíveis motivos
Segundo explicou ao site The Conversation um dos autores deste estudo, Peter Vickers, possivelmente esse maior grau de concordância no caso de Marte tem uma explicação. Embora as bioassinaturas do planeta tenham sido inferidas por métodos indiretos a distâncias interestelares, a rocha marciana pôde ser analisada diretamente pelo rover Perseverance in loco. Também pode haver erros, mas não com tanta facilidade quanto no caso de K2-18b.
Se há algo em que todos os cientistas concordam é que muitas das características que costumam ser consideradas biológicas na Terra também podem ser resultado de processos geológicos. Por isso, é impossível saber com segurança se existe vida extraterrestre apenas com a análise dessas bioassinaturas. Os dados devem sempre ser interpretados com cautela. Apenas a descoberta de um organismo vivo seria conclusiva nesse aspecto.
Não nos enganemos. A ciência se baseia em evidências, não em opiniões. Quando há evidência de algo, como o fato de que as vacinas salvam vidas, não há espaço para opiniões. No entanto, em temas mais complexos de estudar, como os relacionados ao espaço, podem existir opiniões que, por sua vez, também se apoiam em evidências. Justamente isso é o que os cientistas do C-SCOPE observaram neste novo estudo.
“Tratar a opinião científica como a favor ou contra implica o risco de simplificar demais”, afirma Vickers. Isso é o que vínhamos vendo no início deste texto. A resposta para a pergunta se há vida extraterrestre não pode ser simplesmente sim ou não. Existem muitas nuances que precisam ser investigadas e evidências que certamente irão evoluir com o tempo.
Infelizmente, como também indica Vickers, muitas vezes “os debates públicos invocam o consenso científico”. Os consensos científicos existem e são necessários, mas as opiniões individuais, desde que bem fundamentadas, são igualmente úteis. É assim que a ciência cresce e se enriquece: a partir de dados, perguntas e revisões.
Imagem | Katrin Hauf (Unsplash)
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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