Depois do turismo de massa, Japão vira destino para casamentos estrangeiros

Uma única agência já negociou 69 casamentos no país em 2026

Casamento no Japão
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Em 2025, o Japão recebeu 42,7 milhões de turistas estrangeiros, uma enxurrada de visitantes vindos de outros países com vontade de tirar selfies com o Monte Fuji ao fundo, ver as gueixas de Quioto, se maravilhar com as cerejeiras em flor de Fujiyoshida e passear pelo famoso (e cada vez mais sujo) cruzamento de Shibuya.

Entre essas hordas, porém, há um grupo de viajantes com planos bem diferentes: seu objetivo não é apenas turistar pelo país. Na verdade, esse não é o “prato principal” de suas viagens. Eles vão ao Japão basicamente para se casar. E, ao fazer isso, estão impulsionando um enorme negócio.

Não é novidade que o Japão está vivendo um verdadeiro “boom” turístico. Nem mesmo a crise diplomática que eclodiu no final de 2025 com Pequim (e o consequente boicote por parte da China) parece estar afetando o setor. No ano passado, o país recebeu 42,7 milhões de estrangeiros, um recorde absoluto que supera em 15,8% o resultado de 2024 e tensiona ainda mais a (frequentemente tensa) convivência entre locais e visitantes.

O que há de novo é que, impulsionado por essa turistificação acelerada, o Japão está se deparando com um perfil de visitante cada vez mais frequente: casais estrangeiros que vão ao país para dizer o “sim”. Não há muitos dados sobre o fenômeno e os existentes sugerem que não se trata de uma tendência geral nem massiva, mas é algo suficientemente claro para que, nos últimos meses, jornais japoneses tenham dedicado vários artigos ao tema.

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Cerimônia com vista para o Fuji

O mais recente a abordar o tema foi o The Japan Times, que entrevistou turistas que decidiram se casar no Japão e algumas empresas especializadas na organização de cerimônias. Em particular, conversou com a Nomad Weddings, uma empresa neozelandesa que se dedica a planejar casamentos e escapadas românticas e afirma já ter atendido cerca de mil casais de mais de 40 países desde sua fundação, em 2012. Há três anos, passou a ter presença no Japão. Entre seus clientes há turistas da Oceania, mas também de Europa, América do Norte e América Latina.

“Nosso negócio está crescendo. Teve um salto rápido em 2025 e este ano estou viajando por todo o Japão ajudando casais a se casarem. Sem dúvida, está se tornando cada vez mais popular”, comenta seu fundador, James Hirata, antes de compartilhar alguns dados da agência: de cerca de quatro consultas semanais em 2025, passaram para 24 este ano. Algo semelhante ocorre com as reservas: no ano passado somaram 24; em 2026, já ultrapassaram esse número e estão em 69.

Em termos absolutos, são números pequenos, mas que representam apenas o balanço de uma única empresa. Uma busca rápida no Google mostra que há mais agências apostando nesse nicho de mercado e guias online que explicam a estrangeiros como organizar um casamento no Japão. Há algumas semanas, o The Japan News entrevistou outra empresa, a Value Management Co., sediada em Osaka, que oferece serviços matrimoniais a estrangeiros desde 2024. Seus números também são modestos, mas os responsáveis esperam aumentá-los de forma exponencial nos próximos anos.

O número: 4,3 bilhões

A empresa de pesquisa de mercado Future Market Insights ajuda a entender melhor o enorme potencial dos chamados “casamentos de destino” no Japão. Segundo suas estimativas, em 2036 o setor pode alcançar um valor de 4,3 bilhões de dólares, mais do que o dobro do volume estimado para 2026. 

Levando em conta o sucesso de destinos como Okinawa, a popularidade do Japão em outros países da Ásia (China, Coreia do Sul ou Taiwan) e a “crescente aceitação de formatos de casamento não tradicionais”, a empresa espera que o negócio cresça na próxima década a uma taxa anual composta (CAGR) de 8,5%.

O The Japan News compartilha o caso de um casal na casa dos trinta anos dos EUA que disse o “sim” em Osaka. O caso é interessante porque ajuda a entender o que exatamente buscam os noivos que decidem viajar milhares de quilômetros para subir ao altar: primeiro quiseram que a cerimônia fosse em um jardim, com as cerejeiras em flor e a arquitetura japonesa ao fundo; depois do casamento, passaram vários dias no país viajando por Tóquio e Okinawa. No total, ficaram no Japão por 17 dias e mobilizaram cerca de 20 convidados, pessoas que também aproveitaram para visitar Yakushima, o Monte Fuji e Hiroshima.

Outro exemplo é o de Ben e Ariella Jacoby, um casal da Califórnia que, na primavera de 2023, decidiu trocar votos a milhares de quilômetros de casa, perto do lago Kawaguchi, com o Monte Fuji como cenário. Ela nunca tinha estado no Japão. Ele sim e decidiu que queria que o casamento fosse lá. E não é o único a tomar uma decisão assim. Entre os estrangeiros que vão a Okinawa para se casar, há ex-militares americanos que retornam à região onde fica a base aérea de Kadena, na qual serviram.

A experiência, claro, não sai barata, assim como para o restante dos turistas que querem se casar no Japão. Hirata explica que os orçamentos variam entre 700 mil e 1 milhão de ienes (R$ 23 mil e R$ 33 mil) apenas pelo “pacote” do casamento; isto é, a gestão e coordenação, além dos serviços de fotografia, cabeleireiro e maquiagem.

Oportunidades e desafios

O aumento dos “casamentos de destino” coincide com o boom turístico que o Japão vive e representa uma oportunidade para um setor (o de organização de casamentos e serviços relacionados) que viu o mercado doméstico se tornar cada vez mais difícil: a taxa de casamentos no Japão caiu drasticamente nas últimas décadas e, no país, é cada vez mais comum que os casais que se casam optem por cerimônias simples, com poucos convidados.

Em contraste, os noivos estrangeiros estão cada vez mais atraídos pelas paisagens, pelo patrimônio e pela cultura do Japão. Também pesa a possibilidade de combinar o casamento com uma viagem pelo país em um momento em que a fraqueza do iene tornou o destino mais acessível para o resto do mundo. Isso não significa que tudo sejam vantagens. Os “casamentos de destino” ainda enfrentam desafios no Japão, como barreiras linguísticas e culturais ou a necessidade de cumprir trâmites que levam alguns estrangeiros a se casar legalmente em seus países e realizar depois uma cerimônia simbólica no Japão.

Imagens | Kristin Wilson (Unsplash) e Yanhao Fang (Unsplash)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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