O abandono de petroleiros ou outras embarcações comerciais deixou de ser uma ocorrência rara para se tornar uma tendência preocupante: 410 navios foram registrados somente em 2025, um aumento impressionante em relação aos 20 casos de 2016, segundo dados da Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes (ITF), uma organização sindical global que monitora esses incidentes. O que está causando esse aumento?
Os primeiros a serem afetados: a tripulação
Um petroleiro abandonado não significa apenas negligenciar a própria embarcação, mas também deixar mais de 6.000 marinheiros à própria sorte, de acordo com dados globais da ITF. Os marinheiros indianos são os mais afetados, com mais de mil pessoas envolvidas, representando a maioria do total.
Um exemplo é o de Ivan (pseudônimo), o chefe de convés de um petroleiro abandonado há semanas fora das águas territoriais chinesas. Ele contou recentemente à BBC como essa situação afetou sua saúde e o meio ambiente: "Tivemos escassez de carne, grãos, peixe — coisas básicas para sobreviver". E isso sem mencionar a incerteza de avistar a costa chinesa sem saber se algum dia se poderá pisar nela.
Contexto: frotas fantasmas
Nos últimos meses, temos ouvido falar de "navios fantasmas" ou "navios zumbis" — navios que legalmente mal existem, com proprietários ocultos por trás de empresas de fachada. O objetivo é operar fora da estrutura financeira e regulatória oficial para burlar as sanções em rotas "proibidas", como as para o Irã, Rússia ou Venezuela. A guerra na Ucrânia e o contexto das sanções criaram um mercado negro para navios antigos que transportam petróleo.
Os candidatos ideais para se tornarem navios fantasmas são embarcações antigas, geralmente petroleiros com quase duas décadas de serviço — uma idade crítica em que a embarcação já está destinada ao desmanche, facilitando sua entrada nesse mercado clandestino. Quem os compra não vai investir em manutenção a longo prazo; quer recuperar o investimento rapidamente transportando petróleo bruto sujeito a sanções.
Esses tipos de embarcações não possuem seguro abrangente, como os Clubes de P&I, portanto, em caso de qualquer problema, o proprietário desaparece em vez de assumir os custos de reparos ou repatriação.
A armadilha legal das bandeiras fretadas
É aqui que entram em cena as "bandeiras de conveniência", algo como um paraíso fiscal nos mares. Isso acontece quando um proprietário registra sua embarcação em um país diferente do seu para se beneficiar de regulamentações mais brandas. Há uma desconexão legal entre a propriedade real da embarcação e o Estado que lhe concede a bandeira. E o que isso tem a ver com petroleiros abandonados? De acordo com a ITF (Federação Internacional de Transporte Marítimo), 82% dos abandonos ocorrem com embarcações operando sob bandeiras de conveniência.
Entre os Estados com bandeiras de conveniência estão o Panamá, a Libéria e as Ilhas Marshall, que representam 46,5% de todos os navios mercantes. Mas um país merece menção especial: Gâmbia. Em 2023, o país passou de não ter nenhum navio para ter 35 navegando sob sua bandeira, um recorde para a criação orgânica dessa infraestrutura.
Além de legislações mais brandas, muitos desses países terceirizam as inspeções para organizações privadas e não possuem pessoal técnico suficiente para verificá-las posteriormente, como aponta a Organização Marítima Internacional em diversos relatórios.
Prisões flutuantes e bombas-relógio
O caso do Ivan é apenas um exemplo, mas que ilustração: o navio transporta quase 750 mil barris de petróleo russo, com um valor nominal de cerca de US$ 50 milhões (cerca de R$ 268,9 milhões). Ele partiu do Extremo Oriente russo no início de novembro de 2025 rumo à China e lá permanece, nas portas de seu destino, sem poder entrar.
Isso deveria suscitar sérias preocupações sobre o risco ambiental representado por um potencial vazamento de uma embarcação abandonada e sem paradeiro conhecido. Além disso, a segurança do navio está comprometida, visto que o erro humano é responsável por mais de 80% dos acidentes marítimos, e esses marinheiros certamente não estão em suas melhores condições.
Felizmente, a ITF assumiu o controle da situação em dezembro, providenciando salários atrasados, alimentação e outras necessidades básicas, e planejando sua repatriação.
Este não é um problema isolado
O aumento drástico de petroleiros abandonados representa não apenas uma violação das sanções e regulamentações internacionais, mas também uma tragédia humana e um potencial desastre ambiental para o qual não haveria amparo legal.
Embora seja verdade que existam intervenções e abordagens, e que alguns Estados estejam pressionando países que hasteiam bandeiras de conveniência, como a Gâmbia, e obtendo alguns resultados, a realidade é que este é um fenômeno global que exige uma regulamentação internacional mais rigorosa.
Um bom exemplo é a lista negra da Índia, que adicionou 86 navios estrangeiros a um banco de dados por abandonarem marinheiros e violarem seus direitos.
Imagem de capa | Jack Dong
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