Novo app de relacionamentos é sucesso estrondoso em universidade dos EUA; o segredo? É ele que determina os matches, não você

O que começou como um simples projeto de classe escalou até se tornar um fenômeno sociológico massivo que sequestrou a vida social do campus

Date Drop / Imagem: Freepik
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin é jornalista.

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É terça-feira, 21h, em Palo Alto (Califórnia), e o silêncio dos dormitórios de Stanford é quebrado por uma notificação simultânea: é o Date Drop. Em segundos, os corredores se enchem de estudantes que, segundo o The Wall Street Journal, se “aglomeram” sobre suas telas com uma mistura de ansiedade e esperança. Ben Rosenfeld, assistente residencial, descreve o fenômeno como uma “força que consome tudo”: os alunos não falam de outra coisa enquanto descobrem se seu destino naquela noite é um encontro com bebida grátis no On Call Café ou uma reclamação anônima no fórum Fizz.

O que começou como um simples projeto de classe escalou até se tornar um fenômeno sociológico massivo que sequestrou a vida social do campus. Os números são contundentes: em uma universidade de aproximadamente 7.500 estudantes de graduação, mais de 5.000 já entregaram sua vida amorosa às decisões desse algoritmo.

De uma tarefa de classe a uma startup milionária

O arquiteto dessa obsessão é Henry Weng, um estudante de pós-graduação em ciência da computação que programou a plataforma em apenas três semanas. Segundo o site TechCrunch, o que Weng iniciou como uma ferramenta para ajudar seus colegas se transformou na The Relationship Company, uma startup que já levantou 2,1 milhões de dólares em capital de risco.

A lista de investidores inclui pesos pesados do Vale do Silício, como Mark Pincus (fundador da Zynga e um dos primeiros investidores do Facebook), Elad Gil (um dos primeiros investidores de Airbnb, Stripe e Pinterest) e Andy Chen (ex-sócio da Coatue).

A premissa foi tão bem-sucedida que ultrapassou os muros de Stanford. O serviço se expandiu para outras dez universidades de elite, incluindo Columbia, MIT, Princeton e a Universidade da Pensilvânia. Weng, que curiosamente cursou uma disciplina chamada “introdução a palhaço”, que lhe ensinou a “deleitar-se no fracasso”, parece ter encontrado uma fórmula vencedora longe de falhar. “Nossas combinações se transformam em encontros reais a uma velocidade dez vezes maior do que a do Tinder”, garante à TechCrunch.

Como funciona

O aplicativo se afasta radicalmente da mecânica do Tinder. Não há fotos para deslizar compulsivamente para a esquerda ou para a direita. O processo, detalhado no site, começa com um questionário de 66 perguntas projetado para capturar a essência do usuário.

Não são abordados apenas gostos superficiais, mas valores e posicionamentos políticos: “É essencial ter filhos para uma vida plena?”, “Quais são seus valores fundamentais: ambição, curiosidade, disciplina?”, etc. A proposta é captar compatibilidades profundas, e não apenas preferências superficiais, reduzindo o peso da aparência física no processo inicial.

A partir dessas respostas, o sistema aplica modelos de “teoria de emparelhamento” da economia, combinados com uma Inteligência Artificial que aprende com o histórico de interações. Depois de cada encontro, os usuários dão feedback sobre como foi a experiência e esses dados retroalimentam o algoritmo, que ajusta continuamente seus critérios de compatibilidade. Com isso, o sistema vai refinando o que entende como um “bom match” ao longo do tempo.

A característica mais inovadora — e maquiavélica — é o componente social. A plataforma permite que os amigos dos usuários sugiram pareamentos, como se fossem cupidos digitais. Wilson Adkins, um estudante do primeiro ano citado pelo WSJ, descobriu que seus amigos haviam “conspirado” por meio do app para juntá-lo com uma garota da sua residência. O algoritmo validou a conspiração com uma pontuação de compatibilidade de 99,7%.

Apesar do entusiasmo e dos milhões em investimento, o caminho não está livre de obstáculos. O Date Drop não é a primeira tentativa de automatizar o amor em Stanford. Em 2017 nasceu o The Marriage Pact, um projeto semelhante que já gerou 350.000 pareamentos. Segundo o WSJ, os criadores desse projeto original enviaram uma carta de “cessar e desistir” a Weng em novembro, alegando que o marketing do Date Drop lhes parecia familiar demais.

Além disso, a tecnologia tem limites diante da realidade logística. Gabriel Berger, outro estudante, relata que, embora tenha tido uma grande conexão com seu match, suas agendas eram incompatíveis: ele era vice-presidente da sua fraternidade e ela tinha ensaios de dança. “Não estamos interagindo bem”, concluíram.

Já Mila Wagner-Sanchez, estudante do primeiro ano entrevistada pelo Business Insider, acrescenta uma nota de realismo: a novidade se dissipa. Depois de um primeiro encontro divertido (com um amigo) e de um segundo match que nunca lhe mandou mensagem, a pressão fez com que o app ficasse em segundo plano. “Eu estaria aberta a tentar de novo”, diz, mas a vida acadêmica às vezes pesa mais do que a curiosidade algorítmica.

A otimização do amor na era da fadiga

O sucesso do Date Drop não é por acaso; é sintomático de uma geração exausta e de um ambiente obcecado por eficiência. Como aponta o The Wall Street Journal, é uma solução muito Stanford para um problema muito Stanford. Em um campus onde os estudantes são high achievers (pessoas de alto desempenho) focados obsessivamente no sucesso acadêmico e profissional, a interação social orgânica se atrofiou. “As pessoas têm dificuldade para iniciar conversas em geral, e muito mais para interações românticas”, disse a estudante Alena Zhang ao veículo.

Mas o problema vai além de Stanford. Uma análise da Forbes revela uma crise generalizada no mundo dos encontros digitais: 78% dos usuários relatam esgotamento emocional ou mental pelo uso de apps tradicionais. O ghosting (sofrido por 41% dos entrevistados) e a sensação de que os perfis são um catálogo de mentiras criaram uma fadiga crônica.

A isso se soma o “paradoxo da preparação” (readiness paradox). A Geração Z deseja encontrar o amor mais do que qualquer outra geração anterior, mas se sente paralisada pelo medo do “fracasso público”. Eles substituíram o convite para um encontro cara a cara por pedir o Instagram, entrando em um ciclo infinito de “tateamento”. O Date Drop parece romper essa paralisia ao externalizar a decisão: você não precisa mais escolher e arriscar a rejeição pública; o algoritmo escolhe por você.

Otimizando a solidão

Henry Weng tem planos ambiciosos. Ele vê sua empresa como uma “Corporação de Benefício Público”, destinada a facilitar não apenas o romance, mas “todas as relações significativas”, incluindo amizades e conexões profissionais.

Talvez a melhor síntese desse fenômeno seja oferecida por Madhav Abraham-Prakash, um estudante do terceiro ano que ajudou a levar o app ao campus. Embora o Date Drop não lhe tenha conseguido uma namorada, ele afirma que a plataforma lhe facilitou conexões no LinkedIn. Sua justificativa ao The Wall Street Journal resume o espírito de uma geração que não quer deixar nada ao acaso, nem mesmo o destino: “Eu ficaria triste se minha alma gêmea estivesse aqui e eu não a encontrasse. Ou se meu cofundador estivesse aqui e eu não o encontrasse, ou se meu sócio comercial estivesse aqui… E eu não o encontrasse”.

Em Stanford, o amor deixou de ser um mistério para se tornar um problema de otimização de dados. E 5.000 estudantes estão esperando que o algoritmo lhes dê a resposta correta.

Imagem | Freepik

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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