A Geração Z cresceu imersa na era digital. Acostumados com internet rápida, streaming ilimitado e smartphones cada vez mais potentes, eles estão familiarizados com a agilidade, modernidade e instantaneidade. Ainda assim, de uns anos para cá, um movimento inesperado ganhou força entre jovens: a troca da hiperconectividade por dispositivos que fazem uma coisa só.
Cansados de notificações constantes, de perderem o foco enquanto escutam músicas nos smartphones e algoritmos que decidem por eles mesmos, muitos jovens decidiram resgatar aparelhos considerados ultrapassados na rotina. Dentre os itens que voltaram com tudo, os que se destacam são o clássico iPod, as câmeras analógicas, vitrolas, Cybershots e os dumbphones.
Vale dizer que não se trata exatamente de nostalgia. Em muitos casos, são jovens que nem eram nascidos quando esses produtos dominavam o mercado. A motivação é outra: reduzir distrações, recuperar o foco e retomar o controle sobre o que consomem.
iPod: 1.000 músicas no bolso — e zero notificações
O iPod voltou ao bolso da Geração Z como alternativa ao streaming: menos notificações, mais foco e controle total sobre as músicas baixadas.
O iPod é um dos aparelhos que mais fez sucesso durante a década de 2000. No entanto, ele perdeu espaço com o surgimento de smartphones, que permite a união de várias funcionalidades em um só dispositivo. Por isso, a Apple decidiu descontinuar a produção de iPods em 2022. Mesmo assim, o aparelho voltou a circular com força em sites como o eBay, onde as buscas cresceram mais de 8% no último ano e alguns modelos recondicionados chegam a custar centenas de dólares, segundo dados da plataforma.
O motivo para essa retomada é mais simples do que parece: o iPod toca música — e só. Jovens relatam frustração com o streaming, com músicas que desaparecem por questões de licença, aumentos de preço e dependência de conexão constante. No iPod, o usuário baixa o álbum, sincroniza e ele continua lá, sem anúncios, sem mudanças repentinas no catálogo e sem interrupções.
Além disso, há um outro fator que contribui para esse comportamento: o foco. Ouvir música no celular pode significar distrações com notificações do Instagram, do WhatsApp ou de qualquer outro aplicativo. No iPod, no entanto, não há distrações. É só você, o álbum e os fones de ouvido que, aliás, também voltaram à cena. Os fones com fio, deixados de lado após a popularização dos modelos Bluetooth, reaparecem como símbolo de desconexão intencional e também da estética vintage. Dessa forma, há menos bateria para carregar, menos pareamento e menos notificações sonoras invadindo a experiência.
Câmeras analógicas e a valorização da espontaneidade
Sem visor digital e sem filtros instantâneos, processo fotográfico se torna mais consciente, menos automático e muito mais espontâneo
Outro retorno inesperado que voltou com tudo nos últimos anos são as câmeras de filme, conhecidas como analógicas. Em meio a câmeras de altíssima resolução e da edição instantânea, jovens estão comprando rolos, esperando revelação e aceitando fotos imperfeitas. A lógica é quase oposta à do smartphone: você não vê o resultado na hora, não pode tirar 200 fotos iguais e não aplica filtros.
A fotografia analógica impõe limites, e justamente por isso cria intenção. Cada clique custa dinheiro e cada foto exige uma escolha. O processo se torna mais consciente, menos automático e muito mais espontâneo. Em vez de produzir conteúdo para redes sociais, muitos estão redescobrindo o prazer de fotografar para si mesmos.
Vitrola e vinil: ouvir o álbum como ele foi pensado
Ouvir vinil exige é uma uma experiência catártica, transformando o ato de ouvir músicas em um momento consciente
O crescimento do streaming transformou a maneira como se escuta música hoje. Com milhões de faixas disponíveis a qualquer momento, o hábito de ouvir álbuns inteiros deu lugar a playlists infinitas, músicas puladas nos primeiros segundos e um consumo cada vez mais acelerado.
A volta das vitrolas e dos discos de vinil propõe algo contrário a essa ideia. Com a vitrola e o vinil, é possível ouvir um álbum inteiro, na ordem original, virando o lado A para o lado B. O ritual é quase uma experiência catártica, em que tirar o disco da capa, posicionar a agulha, aceitar pequenos chiados faz parte da experiência. Não é apenas som, é interação física, e isso cria uma relação diferente com a música.
Ao exigir tempo e presença do indivíduo, o vinil transforma o ato de ouvir músicas em um momento consciente. Você não pula distraidamente para outra faixa nem alterna entre aplicativos, mas se compromete com aquele álbum, naquela ordem, naquele instante.
Cybershot: a estética dos anos 2000 virou tendência
A estética dos anos 2000 voltou à moda: flash estourado, cores intensas e fotos sem filtro
Antes de os smartphones dominarem tudo, câmeras compactas eram presença obrigatória em viagens e celebrações. Mas com a popularização do celular com câmeras de alta qualidade, as cybershots entraram em desuso. Hoje, no entanto, modelos como a Sony Cyber-shot, um dos mais famosos, reapareceram como um item de moda.
Parte desse resgate está moldado na estética das imagens: flash direto, cores estouradas, granulação leve e aquele visual típico dos anos 2000 que nenhuma lente de iPhone replica perfeitamente. Por isso, muitos exibem as câmeras hoje como acessório estiloso e vintage.
Dumbphones: o telefone que só é telefone
Sem apps, sem redes sociais, sem rolagem infinita: o dumbphone retorna como símbolo de desconexão radical da Geração Z
Sem dúvidas alguma, o gesto mais radical da Geração Z é a adoção dos chamados “dumbphones”, que nada mais são do que celulares antigos aos quais os millennials já estão acostumados. Básicos, com teclado físico, ligação e SMS, esses aparelhos não tem aplicativos do momento, como redes sociais, nem navegação na internet. Ou seja, eles não oferecem nem mesmo 20% das funcionalidades modernas de um smartphone, visto como um item essencial nos dias de hoje.
Mas o que será explica essa adoção polêmica? Para parte da Geração Z, esses aparelhos representam a liberdade do mundo digital. Sem Instagram, sem TikTok, sem rolagem automática, eles só têm acesso a comunicação essencial. Ou seja, eles voltaram como uma solução para quem quer cortar distrações pela raiz.
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