Esqueça a soja: uma planta proibida é o mais novo tesouro que vai transformar o Brasil no maior produtor do mundo

Com autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, projeto da Embrapa busca viabilizar o cultivo de cannabis no Brasil, enfrentando desafios como clima e controle de THC

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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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A cannabis pode estar prestes a deixar de ser um tema restrito ao debate regulatório para entrar, de vez, na agenda econômica do país. Com autorização recente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Embrapa  passou a investigar algo que até pouco tempo parecia improvável: o potencial agrícola da planta em larga escala. Com isso, ela deu início a um programa que mira não apenas o uso medicinal da planta, mas o desenvolvimento de uma cadeia produtiva estruturada, do campo à indústria. Para especialistas, o paralelo é inevitável: o Brasil já fez isso antes, ao transformar a soja em um dos bases do agronegócio.

Com aval da Anvisa, Brasil inicia plano para transformar cannabis em cadeia produtiva agrícola 

O projeto liderado pela Embrapa parte de uma lógica que já deu certo no passado. Há cerca de 50 anos, a instituição foi responsável por adaptar a soja ao clima tropical, colocando o Brasil entre os maiores produtores do mundo. Agora, a aposta é a cannabis, mais especificamente o cânhamo, variedade com baixo teor de THC e amplo uso industrial. Daniela Bittencourt, pesquisadora Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, acredita que a planta pode se tornar uma nova fronteira agrícola, com potencial para gerar uma cadeia produtiva diversificada e altamente lucrativa.

Os estudos envolvem desde a criação de sementes geneticamente estáveis até o desenvolvimento de aplicações que vão muito além dos medicamentos. A planta pode ser usada como fibra, substituindo materiais como o algodão, em cosméticos, produtos veterinários e na recuperação de solos degradados. Ao todo, cinco unidades da Embrapa, espalhadas por diferentes regiões do país, participam do projeto, uma estratégia pensada para entender como a planta se comporta em diferentes climas e níveis de luminosidade, fatores decisivos para o cultivo.

Adaptação ao clima e teor de THC são os principais obstáculos para o cultivo de cannabis no país 

plantação de maconha A produção em ambientes controlados pode ser necessária devido ao clima do Brasil, pois a luz, temperatura e clima influenciam diretamente na composição química da planta.

Apesar do enorme potencial da produção de cannabis em larga escala no país, o caminho está longe de ser simples. Um dos principais desafios é o controle do THC, substância psicoativa da planta. Pela regulamentação atual, o cultivo permitido deve manter níveis abaixo de 0,3%, um limite que pode ser difícil de garantir em um país com alta incidência solar como o Brasil. Isso porque fatores como luz, temperatura e clima influenciam diretamente na composição química da planta. Em condições naturais, o THC pode ultrapassar o limite permitido, exigindo soluções como cultivo em ambientes controlados ou o desenvolvimento de variedades geneticamente adaptadas.

É aí que entra a parte mais complexa do projeto: a criação de um banco de germoplasma e o melhoramento genético da planta, etapas fundamentais para garantir produtividade e conformidade com as regras. Com investimento de mais de R$13 milhões e previsão de pelo menos 12 anos de pesquisa, o programa ainda está no início, aguardando liberação final para começar os testes em campo. 


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