Achávamos que sabíamos tudo sobre a cannabis, mas estávamos errados: a descoberta sobre a origem secreta do THC que muda a medicina

Estudo reconstrói enzimas ancestrais da cannabis e mostra como a planta aprendeu a produzir THC, CBD e CBC ao longo de milhões de anos

Planta de cannabis. Créditos: ShutterStock
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora

Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

383 publicaciones de Laura Vieira

É comum a curiosidade humana querer entender como as coisas se tornam aquilo que são e, no caso da cannabis, uma das dúvidas mais recorrentes envolve a origem de seus principais compostos. Por muito tempo, o THC, o CBD e o CBC foram tratados como produtos finais da cannabis, como se fossem moléculas que surgiram “prontas”. No entanto, não é bem isso que a ciência diz. 

Um estudo publicado no Plant Biotechnology Journal, em 26 de dezembro de 2025, revela que esses compostos são, na verdade, o resultado de uma longa história de tentativas e erros da própria planta. Pesquisadores da Universidade e Centro de Pesquisa de Wageningen (WUR), na Holanda, reconstruíram enzimas ancestrais da planta e revelaram como, ao longo de milhões de anos, ela desenvolveu a capacidade de produzir seus principais canabinoides. Além de esclarecer a origem dessas substâncias, a descoberta também abre caminho para novas estratégias de produção de medicamentos.

THC, CBD e CBC: o que são esses compostos?

É impossível falar de cannabis sem falar sobre THC, CBD e CBC. Isso porque eles são canabinoides, compostos químicos produzidos exclusivamente pela cannabis e responsáveis por grande parte de seus efeitos biológicos. O mais conhecido deles é o THC (tetrahidrocanabinol), composto psicoativo associado à sensação de euforia, mas também estudado por seu potencial analgésico, antiemético e estimulador do apetite.

Por outro lado, o CBD (canabidiol) não provoca efeitos psicoativos e ganhou destaque nos últimos anos por suas possíveis aplicações terapêuticas, especialmente no tratamento de epilepsia, ansiedade, inflamações e distúrbios neurológicos. Já o CBC (canabicromeno) é menos conhecido, mas vem ganhando destaque na ciência por suas propriedades anti-inflamatórias e analgésicas.

Embora hoje sejam tratados como compostos distintos e bem definidos, esses canabinoides compartilham uma origem comum. O estudo realizado na Holanda agora mostra que, no passado, a cannabis produzia essas moléculas de forma menos especializada, por meio de enzimas capazes de gerar vários canabinoides ao mesmo tempo, um detalhe evolutivo que ajuda a explicar como a planta chegou à diversidade química observada atualmente.

Antes da especialização química, a cannabis gerava múltiplos canabinoides simultaneamente

Hoje, nas plantas de cannabis atuais, a produção de cada canabinoide segue uma lógica bem definida: o THC, o CBD e o CBC dependem de enzimas específicas, cada uma responsável por fabricar um composto distinto. Mas essa organização não era assim desde o início. Segundo pesquisadores da Universidade e Centro de Pesquisa de Wageningen (WUR), há milhões de anos a planta operava de forma muito mais “improvisada”.

Naquele período, a cannabis utilizava enzimas chamadas de generalistas, proteínas capazes de produzir vários canabinoides ao mesmo tempo, sem grande precisão. Em outras palavras, a planta ainda não “sabia” fabricar THC, CBD ou CBC separadamente, mas produzia um conjunto de compostos semelhantes a partir de uma mesma rota química.

Mas, com o avanço da evolução, duplicações genéticas fizeram com que essas enzimas passassem por um processo de especialização. Cada cópia foi se adaptando a uma função específica, até dar origem às versões modernas que hoje produzem, de forma independente, THC, CBD ou CBC.

Para demonstrar esse caminho evolutivo, os cientistas fizeram à reconstrução de sequência ancestral. A partir do DNA de plantas atuais, eles inferiram como eram essas enzimas no passado, sintetizaram essas versões antigas em laboratório e testaram seu funcionamento. O resultado foi a primeira evidência experimental de que a capacidade da cannabis de produzir seus principais canabinoides não surgiu pronta, mas foi sendo “refinada” ao longo de milhões anos.

Enzimas antigas podem viabilizar novos canabinoides medicinais

Não foi apenas a origem dos canabinoides que despertou o interesse dos pesquisadores. Ao recriar essas enzimas antigas em laboratório, a equipe percebeu que elas se comportam de forma diferente das versões modernas: são mais fáceis de produzir em microrganismos como leveduras, um detalhe que é importante para a indústria farmacêutica, que já recorre à biotecnologia para fabricar canabinoides em escala, sem depender do cultivo da planta.

Segundo Robin van Velzen, pesquisador da Universidade e Centro de Pesquisa de Wageningen (WUR), essas enzimas ancestrais são mais robustas e flexíveis. Na prática, isso significa que elas funcionam melhor fora da planta e toleram mais variações de processo, o que amplia seu potencial de uso na produção de medicamentos

Um dos intermediários evolutivos reconstruídos chamou atenção especial: ele se mostrou altamente eficiente na produção de CBC, um canabinoide associado a propriedades anti-inflamatórias e analgésicas. Hoje, não existem variedades naturais de cannabis com níveis elevados desse composto, o que limita seu estudo e sua aplicação médica. Ao identificar e testar essa enzima específica, os pesquisadores pretendem introduzi-la em plantas ou em sistemas biotecnológicos para viabilizar tanto novas variedades medicinais quanto medicamentos que ainda não existem no mercado

Inicio