Se você ainda acredita no mito de que o uso de maconha na juventude é apenas uma fase inofensiva, a ciência vai te provar que você está muito enganado. Um estudo publicado no JAMA Health Forum acompanhou 463.396 adolescentes entre 13 e 17 anos, nos Estados Unidos, até o início da vida adulta. A pesquisa analisou dados clínicos coletados entre 2016 e 2023 e concluiu que o uso de cannabis no último ano durante a adolescência está associado ao dobro do risco de desenvolver transtornos psicóticos e bipolares. Além disso, também foi identificado aumento no risco de depressão e ansiedade até os 26 anos.
Estudo mostra que adolescentes que usam cannabis apresentam risco até duas vezes maior de desenvolver transtornos mentais
O consumo de drogas na adolescência é um perigo para os jovens, especialmente porque o organismo não está totalmente formado. O cérebro humano continua em desenvolvimento até, em média, os 21 a 25 anos, especialmente áreas ligadas à tomada de decisão, controle de impulsos e regulação emocional.
É por esse motivo que especialistas alertam que a exposição precoce a substâncias psicoativas pode interferir em processos neurológicos fundamentais. No Brasil, inclusive, foi criado até um Projeto de Lei que propõe elevar para 21 anos a idade mínima para compra de bebidas alcoólicas, alinhando-se a regras já adotadas em partes dos Estados Unidos, argumentando proteção ao desenvolvimento cerebral.
Agora, um dos maiores estudos já realizados sobre o tema coloca números concretos nessa história. Conduzido por pesquisadores da Kaiser Permanente Northern California, a pesquisa analisou registros eletrônicos de saúde de adolescentes submetidos a triagem universal em consultas pediátricas de rotina como dados. Ao contrário de investigações anteriores, que costumavam focar apenas em uso intenso ou transtorno por uso de substância, o critério aqui foi mais amplo: bastava o relato de consumo de cannabis no último ano para que o jovem fosse incluído na análise, e os resultados impressionam. Adolescentes que afirmaram ter usado a substância apresentaram:
- 2,19 vezes mais risco de desenvolver transtornos psicóticos
- 2,01 vezes mais risco de transtorno bipolar
- 1,34 vez mais risco de depressão
- 1,24 vez mais risco de transtornos de ansiedade
Mesmo após o ajuste para fatores como sexo, raça, condições psiquiátricas prévias e uso de álcool ou outras substâncias, a associação entre o uso de cannabis na adolescência e o aumento do risco de transtornos psiquiátricos permaneceram fortes, especialmente para psicose e bipolaridade. Outro dado importante mostrou que o uso da substância precedeu os diagnósticos psiquiátricos em média entre 1,7 e 2,3 anos. Isso fortalece a ideia de que a cannabis pode atuar como um fator de risco ou agravante, e não apenas como consequência de um transtorno já existente.
Alta concentração de THC e expansão do mercado aumentam preocupações sobre impactos na saúde mental dos jovens
Para entender por que os resultados acendem um alerta tão forte, é preciso olhar para o contexto em que essa geração está consumindo cannabis. A maconha é a droga ilícita mais consumida por adolescentes nos EUA, segundo o levantamento Monitoring the Future. O consumo cresce com a idade escolar, chegando a cerca de 26% entre estudantes do último ano do ensino médio.
Ao mesmo tempo, os produtos disponíveis hoje são muito mais potentes do que no passado. Em estados como a Califórnia, a concentração média de THC na flor, o principal composto psicoativo encontrado na planta Cannabis, ultrapassa 20%, enquanto concentrados podem chegar a 95%. Essa combinação entre maior potência e maior disponibilidade preocupa bastante os especialistas.
Segundo os autores da pesquisa, os resultados reforçam a necessidade de estratégias de prevenção precoce, campanhas de informação e políticas públicas que limitem a exposição de adolescentes à substância. Ignorar esses dados e tratar o consumo de cannabis na adolescência como algo banal significa desconsiderar riscos concretos, associados a impactos que podem se estender na vida adulta.
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