O mundo está conectado por meio da internet, quase onipresente e aparentemente onipotente. Mas acontece que 95% do tráfego de dados passa por cabos que, embora não estejam à vista, são bem tangíveis: os cabos submarinos de fibra óptica que percorrem o mundo. Essa infraestrutura estratégica é inerentemente vulnerável devido à sua vasta extensão em ambientes não monitorados. Até pouco tempo atrás, as ameaças se limitavam a acidentes fortuitos em águas rasas, mas agora isso mudou.
A China acaba de alcançar um marco técnico que é um verdadeiro aviso aos navegantes: testou com sucesso um cortador de cabos submarinos capaz de seccionar com alta precisão e operar em profundidades de até 3.500 metros.
O sistema que a China utiliza por meio de seu navio científico Haiyang Dizhi 2 é um atuador eletro-hidrostático (EHA, na sigla em inglês), um dispositivo compacto que integra o sistema hidráulico, o motor elétrico e a unidade de controle em uma única peça — um combo que, segundo explica o South China Morning Post, permite eliminar a tubulação externa de óleo habitual nesse tipo de sistema. O Ministério dos Recursos Naturais da China explicou ao veículo chinês que, no último sábado, 15 de abril, foi realizada sua primeira missão em águas profundas.
Este não é o primeiro cortador de cabos submarinos para grandes profundidades que vemos da China. O país tem equipamentos para cortar em leitos marinhos ainda mais profundos: o Centro de Pesquisa Científica Naval da China e o Laboratório Estatal Chave de Veículos Tripulados de Águas Profundas também desenvolveram, há pouco mais de um ano, uma embarcação que utiliza uma roda abrasiva revestida de diamante, capaz de operar em profundidades de 4.000 metros.
Por que isso é importante
Atualmente, praticamente a totalidade do tráfego de dados intercontinental viaja por cabos submarinos. O Center for Strategic and International Studies dá um exemplo de sua importância: no setor financeiro, eles movimentam aproximadamente 22 trilhões de dólares por dia útil por meio desses sistemas. Qualquer interrupção pode desencadear o caos em países inteiros, levando-os ao isolamento digital, colapsando sistemas financeiros, degradando capacidades militares… muito mais do que um simples ciberataque.
Os cabos submarinos são inerentemente vulneráveis por sua exposição e, com esse tipo de sistema, nem mesmo a profundidade é uma garantia. Além disso, o reparo a 3.500 metros de profundidade é lento e caro, exigindo navios específicos que não são abundantes.
Desde 2024, a China e suas embarcações se tornaram suspeitas recorrentes em casos de supostas sabotagens. Esses acontecimentos geraram uma preocupação crescente na OTAN sobre a segurança desses cabos submarinos diante de táticas de guerra híbrida.
A China, por sua vez, justifica esse desenvolvimento como parte de seu programa de pesquisa científica e mineração em águas profundas por meio da Academia Chinesa de Ciências: a capacidade de cortar cabos é necessária para a recuperação de equipamentos presos, limpeza de resíduos marinhos e preparação do leito marinho para a mineração em águas profundas. No entanto, é inevitável pensar na dualidade de suas funções.
Como conseguiram
Em 2020, uma equipe de engenheiros da Universidade de Lishui, na província costeira de Zhejiang, em frente a Taiwan, desenvolveu um dispositivo de corte de cabos submarinos por arrasto (uma das várias patentes dos últimos anos feitas na China) e, no pedido de patente, a equipe explica que “o método de corte tradicional exige primeiro detectar a posição dos cabos, depois escavá-los e recuperá-los para cortá-los. O processo é complexo, exige muitos equipamentos caros e o custo é alto demais. É necessário um aparelho de corte rápido e de baixo custo para cabos submarinos que permita realizar essa tarefa”. Essas novas ferramentas buscam solucionar isso na medida em que operam diretamente sobre o cabo no fundo do mar, sem necessidade de extração.
Na missão de 30 dias do navio Haiyang Dizhi 2, além de testar a ferramenta de corte, também foi testado um veículo submarino autônomo denominado Hai Ma, foram recuperadas 16 sondas de medição de desenvolvimento próprio e foi implantado o primeiro guincho chinês de águas profundas com 11.000 metros de cabo coaxial.
O fato de existirem patentes e testes de ferramentas para cortar cabos marinhos em grandes profundidades e com eficácia não significa que elas tenham sido usadas nesses incidentes, embora indique, sim, um interesse em cortá-los. A China tem uma posição oficial conhecida, como já vimos no ano passado, quando uma ferramenta semelhante ganhou destaque.
Naquele momento, Liu Pengyu declarou que o dispositivo é utilizado em pesquisas científicas marinhas e que tanto os Estados Unidos quanto vários países europeus possuem tecnologia semelhante. Da mesma forma, ressaltou a importância que a China dá à proteção da infraestrutura submarina e seu compromisso com a comunidade internacional para protegê-la.
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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