"90 horas por semana e eu adoro": funcionários da Apple comemoraram algo que a Geração Z considera tóxico

Mesmo que não fossem exatamente 90 horas, certamente ultrapassavam os limites legais de tempo

Imagem | Steve Jobs
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
pedro-mota

PH Mota

Redator
pedro-mota

PH Mota

Redator

Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

1694 publicaciones de PH Mota

"90 horas por semana e eu adoro." Essa frase, que se tornou um grito de guerra entre os primeiros funcionários da Apple, era mais do que uma declaração de comprometimento: era símbolo de honra no Vale do Silício. Na década de 1980, trabalhar longas horas não era apenas esperado, era celebrado. Jovens talentos sacrificavam sono, relacionamentos e saúde em troca da promessa de mudar o mundo. Na Apple, onde Steve Jobs exigia um nível de dedicação quase fanático, a cultura do excesso de trabalho era uma religião.

Hoje, essa devoção é um veneno para a Geração Z. Eles não querem ser viciados em trabalho nem medir seu valor em noites sem dormir. Que história é essa de dormir no escritório ser um benefício do emprego? Produtividade não é mais sinônimo de presença, e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional é inegociável. O que antes era motivo de orgulho agora é motivo de reclamação no TikTok. Será que a indústria mudou, ou apenas a narrativa?

Jornada de trabalho

O brasil discute atualmente a redução da jornada de trabalho para trabalhadores que atuam em regime de escala 6x1, uma medida que beneficiaria mais de 12 milhões de trabalhadores do setor privado. No mesmo viés, um relatório do Fórum Econômico Mundial reconheceu que uma semana de trabalho de quatro dias pode aumentar a produtividade, melhorar a saúde física e mental dos funcionários e reduzir as emissões de CO₂. Isso contrasta fortemente com o que a Apple vivenciou na década de 1980. Como nos lembra o artigo da Folklore, trabalhar 90 horas era normal para muitos dos primeiros funcionários da empresa.

Jobs

Uma equipe orgulhosa de suas conquistas

Enquanto metade do mundo debatia a redução da jornada de trabalho, houve uma época em que os funcionários se exploravam, ou, dependendo do ponto de vista, eles eram simplesmente jovens e apaixonados. A maioria dos membros da equipe de software do Macintosh tinha entre vinte e trinta anos. Eles não tinham muitas obrigações familiares e estavam acostumados a trabalhar muitas horas.

O artigo continua:

Éramos apaixonados pelo projeto e estávamos dispostos a dedicar, mais ou menos, o resto de nossas vidas a ele, pelo menos por um tempo. Conforme a pressão aumentava para terminar o software a tempo de cumprir o prazo de janeiro de 1984, começamos a trabalhar cada vez mais horas. No outono de 1983, não era incomum encontrar a maior parte da equipe de software em seus cubículos em qualquer noite, dia de semana ou não, ainda digitando às 23h ou até mais tarde.
Steve Jobs dando feedback durante uma avaliação de produto em 1999 Steve Jobs dando feedback durante uma avaliação de produto em 1999

Naquela época, maratonas de testes eram a grande moda. Pequenas competições eram realizadas para ver quem conseguia encontrar mais bugs, quem conseguia executar os testes de estresse mais extremos, e o prêmio era o próprio resultado — uma marca de distinção. Debi Coleman, que já apresentamos em diversas matérias, trabalhava na equipe de finanças na época e decidiu comemorar o feito de uma forma que ainda ressoa com a Geração Z: criando uma camiseta.

Bem, como o próprio Andy Hertzfeld diz no artigo, "para tornar tudo um pouco mais especial, eles escolheram um moletom cinza de alta qualidade. Steve Jobs havia se gabado recentemente à imprensa de que a equipe do Macintosh estava trabalhando '90 horas por semana'." Eles decidiram que o slogan do moletom deveria ser "90 horas por semana e eu adoro", em homenagem à afirmação exagerada de Steve. Uma falácia de atribuição que continha um fundo de verdade.

O moletom continha um erro ortográfico intencional: um "Mackintosh" em vermelho com o "k" incorreto e riscado, dando-lhe um ar mais urbano e "faça você mesmo". E a verdade é que, se fossem vendidos hoje, alcançariam um preço absurdo. O último vendido chegou a US$ 963 dólares.

Blusa

Grosso, com bordado à mão, o moletom era tão confortável que até Burrell Smith começou a usá-lo para trabalhar com frequência, quase todos os dias. O mais engraçado é que Smith saiu da Apple em fevereiro de 1985, então ele cobriu o "9" com fita adesiva e a mensagem ficou "trabalha zero horas por semana e eu adoro isso". Uma alfinetada bem direta, se me permitem dizer.

Vale lembrar que, nos Estados Unidos, a Lei de Normas Justas de Trabalho (FLSA) exige que trabalhadores não isentos (por exemplo, funcionários horistas) recebam 150% do seu salário normal por cada hora trabalhada além das 40 horas semanais, mas aqueles no setor de tecnologia operam sob suas próprias regras. Nos anos 80, não havia restrições legais, e essa brecha fomentou o vício em trabalho do Vale do Silício.

Inicio