A Itália prova que a sustentabilidade não exige tecnologia moderna: as cavernas habitadas há 9 mil anos que são o modelo perfeito de arquitetura bioclimática

Muito antes de existir ar-condicionado, concreto armado ou arquitetura sustentável, uma cidade no sul da Itália já usava pedra, ventilação natural e captação de água da chuva para criar um dos sistemas urbanos mais eficientes da história

Matera
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Matera, uma das cidades mais antigas do mundo, durante muitos anos era vista como símbolo de pobreza extrema na Itália. Hoje, no entanto, a cidade escavada nas rochas da região da Basilicata virou referência mundial em arquitetura bioclimática, turismo histórico e reaproveitamento sustentável de estruturas antigas. A cidade acabou se tornando um objeto de estudo para a engenharia, laboratório de urbanismo sustentável e também patrimônio da humanidade

Um dos pontos mais famosos da cidade são os Sassi di Matera, bairros inteiros construídos dentro de cavernas calcárias, são habitados há cerca de 9 mil anos. Casas, igrejas, cisternas e corredores subterrâneos foram moldados diretamente na pedra ao longo dos séculos, criando uma cidade que praticamente se climatiza sozinha e que funciona até hoje com soluções arquitetônicas que parecem surpreendentemente modernas.

Uma cidade inteira esculpida na rocha muito antes da arquitetura sustentável se tornar prioridade global

Sassi di Matera Vista dos Sassi di Matera, no sul da Itália, onde casas escavadas na rocha formam um dos assentamentos humanos continuamente habitados mais antigos do planeta.

Considerada uma das cidades mais antigas do mundo, Matera está longe de ser uma cidade convencional. Ela surgiu da adaptação humana às formações rochosas naturais de um cânion no sul da Itália. Em vez de destruir o relevo para construir, os habitantes fizeram exatamente o contrário: transformaram a própria paisagem em moradia. E essa é uma das características que torna a cidade tão fascinante hoje.

Os Sassi funcionam como um enorme sistema passivo de regulação térmica. As paredes espessas de calcário absorvem calor lentamente durante o dia e liberam essa temperatura aos poucos durante a noite. Como resultado, a temperatura do ambiente fica naturalmente mais estável, mesmo em períodos de calor intenso ou frio rigoroso. Ou seja, mesmo há milhares de anos atrás, a cidade já aplicava conceitos que hoje aparecem em projetos de arquitetura sustentável, como, por exemplo:

  • Ventilação cruzada natural;
  • Isolamento térmico por massa mineral;
  • Aproveitamento da topografia original;
  • Captação e armazenamento de água da chuva;
  • Redução extrema da necessidade de climatização artificial.

Ou seja, os princípios que hoje definem a arquitetura sustentável, como redução do consumo energético, aproveitamento passivo da temperatura natural e uso eficiente da água, já faziam parte do funcionamento de Matera há séculos. A cidade desenvolveu um modelo urbano que dependia muito menos de recursos externos porque utilizava as próprias características da rocha e da paisagem como solução climática. 

Como consequência, a cidade tinha um impacto ambiental extremamente baixo muito antes de se pensar em pegada de carbono e sustentabilidade, expressão usada para medir a emissão de gases de efeito estufa gerada por atividades humanas. E existe um detalhe ainda mais impressionante: boa parte dessa infraestrutura continua funcional até hoje.

O sistema de engenharia de Matera impressiona até hoje

Quem vê Matera de longe hoje pode enxergar apenas as fachadas de pedra empilhadas sobre o cânion. Mas o que tornou a cidade possível de existir está, literalmente, escondido embaixo dela. Ao longo dos séculos, os moradores criaram uma rede extremamente sofisticada de cisternas, canais e reservatórios subterrâneos para coletar água da chuva. Em uma região marcada por secas e pouca disponibilidade hídrica, isso era questão de sobrevivência. O sistema funcionava quase como uma engenharia hidráulica invisível:

  1. A água da chuva escorria pelas superfícies de pedra;
  2. Era direcionada por canais escavados manualmente;
  3. Chegava até enormes reservatórios subterrâneos;
  4. Depois era distribuída para consumo doméstico e agrícola.

Algumas dessas cisternas têm aproximadamente 15  metros de profundidade e ainda podem ser visitadas atualmente. Além disso, as cavernas foram sendo expandidas ao longo do tempo para criar ambientes interligados, igrejas, escadarias e até sistemas naturais de ventilação. 

Isso significa que, ao invés de impor a arquitetura sobre o terreno, Matera evoluiu em parceria com ele. É essa lógica que atraem urbanistas e arquitetos e os fazem estudar a cidade agora, em um momento em que o setor da construção civil busca formas de reduzir consumo energético e impacto ambiental.

De “vergonha nacional” a referência mundial de sustentabilidade e turismo

Dentro das igrejas rupestres de Matera Dentro das igrejas rupestres de Matera, há pinturas do século IX d.C.

Apesar da enorme importância dessa cidade considerada uma das mais antigas do mundo, Matera quase sumiu do mapa. Na metade do século XX, as condições sanitárias precárias transformaram os Sassi em símbolo da pobreza italiana. Famílias inteiras viviam sem eletricidade, água encanada e saneamento adequado dentro das cavernas. O governo italiano chegou a remover milhares de moradores da região nos anos 1950.

Por isso, durante muitos anos, o centro histórico ficou praticamente abandonado. Tudo começou a mudar quando arquitetos, historiadores e movimentos culturais passaram a defender que o problema não era a estrutura das cavernas em si, mas o abandono social e econômico da região. A restauração aconteceu aos poucos:

  • Cavernas foram recuperadas;
  • Sistemas modernos de infraestrutura foram instalados;
  • Igrejas rupestres passaram a ser preservadas;
  • Antigas moradias viraram hotéis, restaurantes e centros culturais;
  • A cidade entrou para a lista de Patrimônio Mundial da UNESCO em 1993.

Hoje, Matera virou um dos destinos mais visitados da Itália e um exemplo raro de reutilização sustentável de estruturas históricas sem destruir sua identidade original.


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