Quando imaginou uma jornada ao centro da Terra, Júlio Verne levou seus personagens a um mundo subterrâneo cheio de mistérios. O que ele não poderia imaginar é que, séculos depois, a ciência descobriria que ele estava certo em sua previsão: que o interior do planeta pode esconder a maior reserva do elemento que forma a água.
O hidrogênio é a base da molécula de água (H₂O) e o elemento mais abundante do Sistema Solar. Ainda assim, quando os cientistas comparam a Terra a meteoritos primitivos ricos em hidrogênio, o planeta é considerado relativamente “pobre”. Agora, pesquisadores afirmam ter identificado onde o hidrogênio pode estar escondido, e por incrível que pareça, ele não está na superfície, nem no manto, mas no coração do planeta, o núcleo. A descoberta foi publicada nesta terça-feira (10), na revista Nature Communications, a partir de experimentos que simularam as condições extremas do núcleo terrestre em laboratório.
Segundo os pesquisadores, o hidrogênio encontrado lá pode representar entre 0,07% e 0,36% da massa do núcleo, o equivalente a algo entre 9 e 45 vezes a quantidade presente em todos os oceanos da superfície. Se confirmado, o resultado reforça a hipótese de que a maior parte da água da Terra foi incorporada ainda durante a formação do planeta, há aproximadamente 4,5 bilhões de anos atrás.
Experimentos sob pressão extrema revelam a presença de hidrogênio no núcleo
A ideia de que o núcleo terrestre poderia esconder grandes quantidades de hidrogênio não é de agora, mas o grande problema sempre foi provar isso. Afinal, o núcleo terrestre está localizado a milhares de quilômetros de profundidade, submetida a pressões e temperaturas altíssimas, que não podem ser observadas diretamente.
Para contornar essa limitação, a equipe utilizou células de bigorna de diamante aquecidas a laser, um equipamento capaz de reproduzir condições semelhantes às do núcleo. Nessas simulações, o ferro líquido, principal componente do núcleo, foi analisado com uma técnica chamada tomografia de sonda atômica, que permite mapear átomos individualmente em escala nanométrica, ou seja, com dimensões extremamente pequenas.
Após o mapeamento, os cientistas observaram um conjunto de hidrogênio, silício e oxigênio dentro do metal sob alta pressão. A proporção encontrada entre silício e hidrogênio foi próxima de 1 para 1. Com base nessas medições e nas estimativas já existentes sobre a quantidade de silício no núcleo, os pesquisadores conseguiram calcular quanto hidrogênio pode estar armazenado ali. Eles concluíram que, embora represente menos de 1% da massa do núcleo, essa pequena fração já seria suficiente para guardar o equivalente a até 45 oceanos de água.
Descoberta fortalece a hipótese de que a água da Terra surgiu durante a formação do planeta, e não apenas com a chegada de um cometa
De onde veio a água da Terra? Desde os primórdios da humanidade esse questionamento se mantém. Uma das hipóteses mais aceitas defende que, boa parte do hidrogênio e, consequentemente, da água, teria sido trazida por cometas e asteroides após a formação do núcleo. Mas, se o núcleo concentra grandes quantidades de hidrogênio, essa história muda. Isso indica que o elemento já estava presente nos estágios iniciais de formação do planeta, há cerca de 4,5 bilhões de anos. Ou seja, ao invés de chegar apenas depois, a água pode ter sido incorporada desde o começo da história da Terra.
Ver 0 Comentários